A vantagem mecânica do taijiquan

A vantagem mecânica do Taijiquan (Tai Chi Chuan)

O Taijiquan (tai chi chuan), se praticado com alguma regularidade, oferece benefícios já investigados experimentalmente como: melhora significativa do equilíbrio, redução da pressão sanguínea em repouso, aumento das células T do sistema imunológico, redução da ansiedade, redução do risco de queda na população idosa, aumento da eficiência respiratória, queda dos índices de hormônios ligados ao estresse (cortisol salivar), melhoria da flexibilidade das juntas, e outros.

O que é único no Taijiquan (tai chi chuan)

Pode-se argumentar que alguns destes benefícios seriam oferecidos também por vários outros tipos de exercícios, e que estão na verdade relacionados a simples existência de uma atividade física na rotina de alguém. Embora isto não seja exatamente correto, como pesquisas recentes demonstram, cabe uma pergunta: que há de específico no exercício físico da prática do Taijiquan (tai chi chuan) ?

Vamos começar propondo uma analogia. Imagine uma máquina qualquer, por exemplo o motor de um automóvel. Este motor gera uma determinada potência, que disponibiliza no seu eixo (o eixo de manivelas). Esta potência chega a uma caixa de engrenagens, a caixa de marchas do carro, e através desta é entregue nas rodas. Ora, toda caixa de engrenagens impõe uma determinada perda, ou seja, nenhuma caixa de engrenagens é 100% eficiente em transferir potência de um eixo para outro.

Suponhamos agora que queremos usar a força do corpo todo para desferir um golpe com o punho: envolveremos troca de peso de uma perna para outra, rotação do tronco e dos membros, e extensão destes (em resumo). De certa forma estamos tentando transferir a potência gerada pelas pernas e pelo tronco até os membros superiores para somá-la à gerada por estes. Assim como na caixa de engrenagens há uma perda envolvida, não é possível transferir 100% da força do corpo para os punhos. Quanto maiores os vícios posturais da pessoa, maior será a perda. Na maioria das pessoas a transferência é muito ineficiente, quase nada é transferido – só o que se consegue na maioria dos casos é criar algum momentum, isto é, aumentar a velocidade do punho no instante do impacto, mas quase nenhuma força propriamente dita é transferida.

Ora, analisando com mais atenção, mas de modo ainda imperfeito, podemos dizer que o sistema músculo-esquelético humano consiste em um sistema complexo de alavancas, através das quais a força é transferida para o ponto de aplicação. Se imaginarmos uma só destas alavancas, a do cotovelo por exemplo, uma das dificuldades possíveis na transferência de força pode ser por exemplo a existência de forças laterais ao plano de movimento da mesma. Mas se imaginarmos uma situação um pouco mais real veremos que a complexidade na transferência da força e a sutileza das dificuldades pode ser incrivelmente grande. Usemos o caso de uma simples flexão de braços: agora não é somente o músculo responsável pela extensão da alavanca do cotovelo que é utiliizado, mas todos os músculos do braço e ainda outras articulações: qual seria a posição ideal do ombro e da escápula? Como usá-los de modo a usar a força dos braços da maneira mais eficiente? Quanto tensionar ou quanto relaxar os músculos peitorais e adbominais?
A realidade do movimento do corpo é inúmeras vezes mais intrincada. Tomemos uma pessoa em pé, com os joelhos levemente flexionados, fazendo movimento de extensão das pernas e braços e girando o tronco ao mesmo tempo, como no Taijiquan (tai chi chuan). Imaginemos as vértebras todas da coluna, e a quantidade de tendões e ligamentos envolvidos em todas as articulações do corpo.

O objetivo do Taijiquan (tai chi chuan) – falando apenas mecanicamente – consiste exatamente em chegar o mais próximo possível de transferir com 100% de eficiência a força gerada por todo o corpo para o ponto de impacto.
Se fôssemos praticar pensando em todo este sistema complicado de articulações, seria impossível conseguir algum progresso. Por isto há um método de aprendizado definido, com instruções simples e claras, que leva ao aprendizado da postura correta do corpo. Nesta postura a força interna é desenvolvida naturalmente. Mas como isto acontece do ponto de vista mecânico? Ora, o corpo do praticante está submetido constantemente à força da gravidade. Analisemos mais uma vez uma única articulação, por exemplo o joelho: ao adotar uma postura em que a eficiência na transferência de força através da articulação seja a melhor possível, isto significa que toda a carga do peso do corpo estará sobre a musculatura, a articulação e seus ligamentos estarão numa posição de neutralidade. Portanto a articulação será o mais flexível possível e os músculos suportarão a maior carga possível, o que causa maior fortalecimento. De forma análoga porém oposta, quando desferindo um golpe, as articulações sofrem o mínimo com o impacto, e a descarga da força dos músculos de todo o corpo é o mais efeiciente e coordenada possível.
A precisão e o refinamento da postura e dos movimentos não têm limites, e a partir de um determinado ponto em que há um grau de coordenação e interdependência dos movimentos, pode-se falar não em fazer vários movimentos simultâneos, mas sim um único movimento com todo o corpo, e no envolvimento da musculatura profunda. Nisto consiste o aparecimento da força interna. Com mais prática e ainda mais precisão, a força além de transferida começa a ser mais e mais focalizada, e o fluxo do qi começa a poder ser sentido naturalmente. A força interna e o qi podem ser encarados como os aspectos yin e yang de uma mesma realidade.

Assim podemos inferir os benefícios peculiares ao Taijiquan (tai chi chuan) para a saúde física do praticante: a sua musculatura será exercitada de forma absolutamente proporcional e fisiológica, o aumento da sua força ocorrerá num ritmo natural para o seu corpo, as suas juntas tornar-se-ão livres para moverem-se na amplitude natural, e sofrerão o mínimo de desgaste com o passar dos anos. Com o aumento da habilidade a perfusão superficial do qi será melhorada e o [weiqi] será mais eficaz para impedir a penetração de patógenos, e posteriormente a circulação do qi será desbloqueada em níveis progressivamente mais profundos.