O conceito de qi (energia) no Taijiquan

O conceito de qi (energia) no Taijiquan (Tai Chi Chuan)

A escrita chinesa é composta de pictogramas que expressam idéias, chamados ideogramas. Isto evidencia uma forma de pensar e de transmitir estas idéias diversa da forma como estamos acostumados no Ocidente, o que cria dificuldades imensas de tradução da língua chinesa, seja em textos ou na transmissão oral.
A situação fica ainda mais complexa quando as idéias que se está tentando transmitir pertencem a um campo altamente técnico, e esta complexidade é multiplicada no caso das artes marcias chinesas pois os textos escritos são normalmente muito antigos. Estes textos, além de utilizarem ideogramas que já foram transformados pelo tempo, eram escritos de forma que seu conteúdo não fosse imediatamente acessível a um leigo, e mais ainda: de forma que mesmo para um estudante o significado do texto fosse sendo revelado em camadas cada vez mais profundas de conhecimento.

Um dos conceitos pior compreendidos no Taijiquan (tai chi chuan) é o conceito de qi (pronunciado “tchi”). O ideograma para qi foi traduzido de várias formas, mas a que mais se popularizou, em parte devido ao pioneirismo, foi a de “energia”. Esta tradução tem sido usada em Medicina Tradicional Chinesa e em Taijiquan (tai chi chuan) pelo mundo a fora, e contribui para a confusão a respeito do significado de qi, que tem significados diferentes dependendo do contexto em que é utilizado.
Mas nosso objetivo aqui não é discutir qual a melhor tradução em determinado contexto, e nem mesmo especular sobre a existência ou não de uma energia ou de um sopro vital que seja importante para a prática do Taijiquan (tai chi chuan). Pelo contrário: tais especulações tendem a alimentar a misitificação desta arte, que é tão contraproducente para o seu aprendizado concreto. Demonstraremos através de dois exemplos familiares ao pensamento ocidental que a mistificação é desnecessária, e vamos propor uma abordagem prática do conceito de qi.

O que se chama de qi em Taijiquan (tai chi chuan), e que é habitualmente traduzido por energia, não tem absolutamente nada a ver com o que significa energia em termos físicos. Além disso não é possível medir ou detectar o qi, o que inevitavelmente levanta a questão sobre a sua existência – então chegamos ao ponto central: não é de nenhuma forma necessário acreditar na existência real do qi para praticar Taijiquan (tai chi chuan), para desenvolver força interna e nem para alcançar níveis mais avançados no Taijiquan (tai chi chuan).

Qi, no contexto da prática do Taijiquan (tai chi chuan) é, num nível mais superficial, simplesmente uma sensação ou um conjunto de sensações produzidas pelo exercício executado segunda a técnica correta. O fato de tais sensações existirem e de serem de alguma forma úteis ao aprendizado não quer dizer que exista qi – o conceito de qi pode ser tratado como sendo uma construção teórica apenas.
Esclarecemos com um exemplo prático: quando dizemos “está fazendo frio” e “está fazendo calor”, isto não quer dizer que exista uma grandeza física chamada frio e uma outra chamada calor. Apenas para começar, podemos dizer que frio é uma sensação causada pela ausência de calor. Prossegimos lembrando que calor também é apenas uma sensação, que na história da ciência já se chegou a acreditar na existência de uma substância chamada calórico, e que hoje sabemos que uma temperatura elevada é uma das muitas formas de verificar energia (no sentido físico) num sistema. No entanto, falar em calor e frio nos serve do ponto de vista prático, e o mesmo se aplica a falar em qi.

Num estágio mais avançado de treinamento do Taijiquan (tai chi chuan) o conceito de qi adquire uma importância maior. Sua utilidade passa a ser a de uma interface entre a mente e o corpo, quando a habilidade do praticante atinge um determinado ponto.
Usando novamente um exemplo científico: crê-se atualmente que é possível em princípio descrever todas as reações químicas utilizando-se do aparato teórico apenas da física. Mas por que dizemos em princípio? Porque mesmo as reações químicas mais simples são tão complicadas de serem descritas que, embora o corpo teórico oferecido pela física seja suficiente para descrevê-las, o problema prático de fazê-lo é intratável.
De uma forma parecida poderíamos adotar a hipótese de que todos os movimentos do corpo são em princípio passíveis de serem descritos mecanicamente, em termos dos músculos, tendões e articulações envolvidos. Mas mesmo que isso seja possível, na prática é impossível aprender a realizar estes movimentos com o seu própio corpo, especialmente num grau de precisão a harmonia como no Taijiquan (tai chi chuan), sem usar o conceito do qi.

Assim podemos supor que o qi exista ou que não exista, mas isto é irrelevante para a prática. Quem assim preferir pode até mesmo por simplicidade supor que o qi não exista num sentido concreto. O que é relevante é que para aprender Taijiquan (tai chi chuan) o praticante deve, durante o treinamento dos movimentos, tratar o qi como se este tivesse existência real. Isto é necessário para que ele possa atingir a integração dos movimentos do corpo em um só movimento, e aumentar indefinidamente o refinamento deste movimento único.
Não pretendemos nem desejamos passar a impressão de que Taijiquan (tai chi chuan) é algo científico, longe disso. Mas queremos deixar claro que esoterismos são supérfluos e que todo conhecimento contido no Taijiquan (tai chi chuan) é empírico e vem de uma herança milenar de cultura corporal que antecede a sua criação, e que foi enriquecida por séculos de treinamento dedicado de várias gerações da família Chen.