Zhanzhuang: a postura da estaca

Zhanzhuang: a postura da estaca

Nos primeiros anos de aprendizado de Taijiquan (tai chi chuan), um aluno depara-se com uma grande variedade de sensações físicas contraditórias, devido à enorme diferença entre mecânica corporal do Taijiquan (tai chi chuan) e uma atividade esportiva comum. Isto gera uma impressão de confusão e ausência de progresso que frustra os menos perseverantes, mas alguma luz sobre o processo de aprendizado torna estes primeiros anos mais palatáveis.
Aqui, partimos do princípio de que o aluno tem acesso regular a um professor competente: conseguir isto na prática já é por si só uma conquista, devido à escassez de professores suficientemente treinados para ajustar a postura do aluno com a precisão necessária.

O treinamento mais básico disponível no Taijiquan (tai chi chuan) é o zhanzhuang (zhan zhuang), ou seja, o exercício de ficar parado na postura. Esta postura pode ser qualquer uma das posturas praticadas na laojia, ou pode ser a postura mais simples de todas, por isto mesmo recomendada. Descrevendo-a resumidamente, trata-se de ficar em pé com os joelhos levemente flexionados. Nesta postura o professor ajusta o corpo do aluno, certificando-se de que esteja alinhado corretamente. A tradução literal do termo zhanzhuang (zhan zhuang) é “estaca em pé”, mas outras traduções correntes referem-se a este mesmo treinamento: postura da árvore, postura do pilar, etc.

As instruções verbais tradicionais são dadas antes que o professor inicie os ajustes: acalmar-se. Fechar os olhos, manter a cabeça ereta, manter o corpo reto, ouvir atrás. Relaxar a espinha, relaxar o peito, relaxar o dantian, o peito se esvazia e o dantian se enche. Relaxar todo o corpo, relaxar a mente. É impossível enfatizar em excesso o quanto estas instruções são importantes. Frequentemente os alunos sentem-se perdidos durante a prática da postura, e não sabem o que fazer enquanto ficam parados durante os 30 minutos deste exercício: o que se deve fazer é exatamente o que o professor diz nas instruções iniciais, isto é: relaxar todo o corpo e relaxar a mente.

Um segundo tipo de dificuldade é que o aluno normalmente sente que o professor o está inclinando para a frente ou para trás, e tem a sensação de que vai desequilibrar-se numa destas direções. Isto acontece porque na verdade o professor está colocando o corpo do aluno na vertical e alinhado, mas a referência interna que o aluno tem de “vertical” é baseada na postura incorreta a que está habituado.
O procedimento que o aluno deve adotar é: manter os olhos fechados, e não mover-se nem mesmo um milímetro da posição em que o professor o colocar, e procurar relaxar todo o corpo mantendo esta posição. Desta forma e com a repetição das aulas o aluno modificará gradualmente a sua referência interna da posição do corpo.

Após algum tempo de prática, o iniciante pode ter uma variedade de sensações enganosas. Entre elas é possível que tenha a impressão de que a postura em que o professor o coloca é instável, e que o mínimo descuido resulta em perder os ajustes, não sendo possível voltar à postura correta por mais que tente. Isto demanda explicações mais detalhadas:
É natural que o aluno perceba a postura correta como instável, inicialmente. Ocorre que a referência de estabilidade para a maioria das pessoas é baseada em “travar” as articulações através de tensão muscular – o que pode ser feito levando-se uma articulação ao final do curso, ou tensionando uma combinação de músculos que venha a impedir o seu movimento. Mas na postura correta para a prática do Taijiquan (tai chi chuan) todas as articulações, especialmente aquelas envolvendo a bacia, estão na posição em que têm a maior liberdade possível de movimento. Ou seja, estão soltas, nunca travadas, e é a partir desta postura que se desenvolve força interna. Porém nos primeiros anos de treino o aluno ainda não possui força interna alguma, daí a sensação de instabilidade, que só será superada com o passar do tempo, e será substituída por uma sensação de estabilidade e mobilidade simultâneas.
E quanto à não conseguir voltar à postura correta, se desviar-se dela? Como dissemos, o aluno não possui força interna alguma durante os primeiros anos de aprendizado. Não lhe é possível chegar sozinho à postura correta, pois simplesmente não tem força para alinhar as articulações como requerido, e além disso não sabe exatamente onde colocar as articulações. Parece uma situação irremediável, mas esta é a função do professor: colocar o corpo do aluno na postura, para que o mesmo desenvolva força e crie a referência da posição. Novamente enfatizamos, a parte do aluno é relaxar todo o corpo, sem exceção de nenhuma parte dele, enquanto mantém a postura sem mover-se.

Posteriormente, o aluno perceberá que estas sensações tendem a se repetir em ciclos, mas com intensidade cada vez menor. A força interna e a precisão da referência aumentam de forma paulatina, e o aluno sentirá que aumenta ao mesmo tempo sua capacidade de relaxar mesmo sob esforço, e quanto mais relaxar mais força interna será necessária para manter a postura, e neste processo os tendões, ligamentos e músculos vão sendo naturalmente alongados.
Convém observar que força e relaxamento estão intimamente ligados e não são excludentes – ao contrário, para poder relaxar é necessário força. Imagine-se suportando uma carga maior do que é capaz: fatalmente seu corpo todo ficará tenso. Já se a carga for muito pequena, será fácil suportá-la com o corpo relaxado. Ocorre que na postura correta o peso do próprio corpo é muito grande, por isto é necessário um treinamento longo para ser capaz de manter esta postura com relaxamento.

Rotina de treinamento

Aprender Taijiquan (tai chi chuan) pode ser uma experiência muito frustrante se o aluno não estiver ciente de alguns pontos que apesar de lógicos, por vezes escapam à percepção. O mais básico de todos é que o aluno não sabe, e não saberá por vários anos, exatamente qual é a postura correta do corpo, com a precisão necessária. Se soubesse, não precisaria de contato regular com um professor – e de fato não precisará quando isto acontecer.
No entanto, a única maneira de aprender Taijiquan (tai chi chuan) é praticando, mesmo que “errado”. Vagarosamente, conforme a força interna aumenta, o aluno se aproxima mais da postura correta, e o resultado do seu esforço parece mais visível. Este é um processo bem diferente do sistema educacional convencional, onde é necessário estar “certo” para ser “aprovado”, e por este motivo um sistema de graduação é inadequado para o Taijiquan (tai chi chuan).
Além disso, deve-se saber que o corpo e a mente não estarão unidos por ainda muito mais tempo, e por causa desse fato o praticante fica sujeito à variações devido ao cansaço hora de um, hora de outro, e por vezes de ambos. Quando ambos estão cansados pode ser necessário reduzir a carga de treino por um dia ou dois.

Progresso

Em geral pode-se dizer que a norma é que a própria habilidade pareça aumentar e diminuir ciclicamente, e isto tende a criar uma impressão de ausência de progresso. Para formar uma idéia mais serena sobre a sua evolução, sugere-se evitar comparar o dia de hoje com o de ontem, mas sim medir este ano contra o ano passado.
Se o professor é verdadeiramente hábil, uma nova barreira se apresenta: a cada pequeno progresso do aluno, o professor tem condições de ajustar a postura do mesmo mais precisa e profundamente. Assim a cada pequeno passo que dá, o aluno defronta-se com um novo desafio, maior que o anterior, e o treino fica cada vez mais rigoroso e pesado fisica e mentalmente. Isto continua até que a postura correta torne-se natural para o corpo.

Comentários

 
Poderia explicar um pouco mais sobre a “própria habilidade pareça aumentar e diminuir ciclicamente”?
— Juan Gabriel

Você pratica algum tempo (pouco, digamos um mês) e então sente uma determinada mudança no corpo, que dá a sensação de progresso. Depois de uma semana você tem a sensação de que nada mudou realmente. Depois de mais um mês o mesmo acontece. Isto tende a se repetir, e o que acontece na verdade é que quando você obtém um progresso o corpo logo se adapta a ele, se acostuma com um novo patamar, e o seu nível de exigência automaticamente sobe. Por isso a sensação de que nada mudou, depois de por exemplo uma semana. Durante alguns anos é assim, depois a evolução fica mais nítida, conforme o julgamento fica mais refinado.

Treinei esse exercicio durante muito tempo, mas de forma diferente. Treinava usando outro tipo de conceito, também relaxado mas com intençao de encher e esvaziar, ou melhor – grande ou pequeno e fogo, isso deixava meus sentidos apurados, mas eu ficava muito irritado. Ate hoje sofro com as consequencias: meus ouvidos parecem ouvir bem mais que o normal, e qualquer ruido me irrita.
— Ronaldo

Sua experiência mostra porque uma das instruções fundamentais neste exercício é relaxar a mente. Praticar zhanzhuang (zhan zhuang) ou qigong (chi kung) de forma inadequada pode realmente gerar efeitos colaterais indesejáveis. Em geral é perigoso praticar qualquer tipo de qigong com intenções de fazer o qi subir, ou visualizando cores quentes (amarelo, vermelho, laranja) – exceto em situações muito especiais.