Chansijin –  a força em espiral

Chansijin – a força em espiral

Todo sistema marcial, além de outros componentes, inclui um método para gerar força mecânica. Este método pode ser simplório, como por exemplo utilizar apenas a força muscular do membro diretamente envolvido num movimento: a força do braço para desferir um soco, ou a força de uma perna para desferir um chute. Pode ser um pouco mais elaborado, como no caso de usar-se a inércia do corpo para aumentar a força de um golpe: por exemplo, girar o corpo em torno do eixo vertical enquanto desfere um soco, para aumentar a velocidade do punho, e consequentemente o momentum do mesmo, tornando seu impacto mais eficiente. O objetivo de um método para aumentar a força do corpo além daquela imediatamente disponível à primeira vista é óbvio: contra um inimigo minimamente treinado apenas técnicas de alavanca são insuficientes, é necessário que a força que opera a alavanca seja grande o bastante para tornar a técnica aplicada irresistível, ou o impacto de uma pancada devastador.

As artes marciais na China e no Japão alcançaram um nível de grande profundidade no que diz respeito ao método de gerar força. Tanto as artes marciais ditas externas quanto as ditas internas desenvolveram métodos altamente detalhados e precisos de mover toda a força disponível no corpo e concentrá-la focalizadamente no ponto de aplicação, seja numa chave, seja num impacto. A elaboração cada vez mais refinada destes métodos pode ter sido um fator contribuinte para a composição de uma das facetas do conceito de qi. Os exercícios disponíveis podem ser chamados, às vezes de modo intercambiável, de qigong (chi kung) ou de neigong, termos que significam “trabalho sobre o qi” ou “trabalho interno”. No Taijiquan (tai chi chuan) pode-se dizer que dois exercícios compõem o qigong básico: zhanzhuang (zhan zhuang) e chansijin.

Desenrolar o fio de seda

Chansijin significa literalmente “desenrolar o fio de seda”. Chansijin é na verdade o princípio de movimento que deve estar constantemente presente durante a execução da laojia, e de qualquer outra forma ou movimento do Taijiquan (tai chi chuan). Antigamente não existia um treinamento em separado de chansijin, o princípio era praticado durante a repetição das formas, e aprendido naturalmente. Ocorre que no passado o taijiquan (tai chi chuan) era ensinado somente dentro do meio familiar e a dedicação exigida era de tempo integral, o número de repetições da laojia que um aluno realizava chegava a 30 por dia. Mas na atualidade o Taijiquan (tai chi chuan) passou a ser ensinado a amadores, e a dedicação menor destes tornou muito difícil que aprendessem o princípio de movimento durante as formas, devido à grande complexidade do movimento do corpo durante as mesmas. Os Grão-Mestres da atual geração resolveram então por oferecer uma didática mais palatável, e criaram a partir dos movimentos das formas exercícios isolados com o objetivo de ensinar o chansijin de maneira mais direta.

O movimento do centro do corpo pode ser didaticamente explicado como se fosse realizado em torno de dois eixos imaginários distintos: um movimento em torno do eixo que passa pelo dantian (logo abaixo do umbigo), em direção à frente e paralelo ao chão, e outro em torno do eixo que passa de um lado ao outro dos quadris, também paralelo ao chão. Esta divisão, deve-se frisar, é didática e não deve ser tomada rigidamente pelo aluno, pois durante as formas o movimento do corpo é na maioria das vezes em torno dos dois eixos simultaneamente. Além disso o movimento em torno do segundo eixo citado acima requer um grau de evolução bastante avançado para o aluno médio.
O chansijin é um exercício repetitivo, que é praticado exaustivamente de modo a treinar o corpo em duas habilidades: primeiro, em manter a força interna durante o movimento e não apenas durante o zhanzhuang; segundo, em desenvolver a força em espiral. Existem vários tipos de exercícios compondo o chansijin, escolhidos para treinar a espiral em torno dos dois eixos separadamente e também simultaneamente. Estas são algumas fotografias do Grão-Mestre Chen Xiaowang demonstrando o primeiro tipo de chansijin:

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O nome chansijin é uma referência ao ato de desenrolar o fio de seda de um casulo de bicho-da-seda, e é usado porque durante este exercício é necessário manter um grau exato de força e relaxamento, pois se for usado excesso de força o qi se emaranha, mas se for usado excesso de relaxamento parte-se a conexão. Mas o que significa fio de seda, na prática do Taijiquan (tai chi chuan)?

Força em espiral quer dizer que a força que é desenvolvida pelo corpo durante a prática do Taijiquan (tai chi chuan) enrosca-se em torno dos membros, e não é simplesmente a extensão ou flexão de uma articulação com alguns músculos agindo para mover uma alavanca, mesmo quando o movimento resultante visto por um observador externo parece retilíneo. Um soco, desta forma, não se limita à extensão do braço e antebraço causada pela contração do tríceps, e nem é suficiente incluir na análise o movimento do tronco em torno do eixo vertical – estas são simplificações que nem arranham a superfície do que é a força em espiral. A espiral começa dentro do centro do corpo, e o praticante com alguma experiência pode sentir que o movimento do braço em torno do seu próprio eixo é causado, comandado, e está mecanicamente ligado ao movimento do centro do corpo, que se reflete no movimento da musculatura da região em torno da juntas coxo-femurais, se espalha pela região lombar e pelo abdômen, pela região dorsal e peito, e finalmente se expressa pelo braço e punho.
Ao mesmo tempo a mesma espiral propaga-se pelos dois lados do corpo e por ambas as pernas – quando uma parte do corpo se move, todo o corpo move-se em consonância, num movimento único. A espiral deste exemplo, por sinal, não é em torno do eixo vertical, embora o tronco termine girando em torno de um eixo vertical – a espiral de força neste caso é, a grosso modo e na região do centro do corpo, em torno do eixo que passa pelo dantian paralelamente ao chão. O tronco está girando em torno da vertical, se olhado do exterior, mas a musculatura interna ao corpo está girando em torno de si mesma, de acordo com a direção de cada feixe. Desta forma é fécil verificar que a espiral a que nos referimos não é o movimento circular visível externamente, mas sim o movimento muito pequeno dos músculos dentro do corpo.

O que se chama de fio de seda é o que liga mecanicamente as espirais dos inúmeros feixes de músculos do corpo, e que faz com que todas estas espirais sejam um só movimento, uma só espiral. Alguns pensam que desenrolar o fio de seda refere-se à aparência circular do movimento das mãos durante os exercícios, mas isto é um erro. Fio de seda refere-se às conexões dentro do corpo que são treinadas pelos exercícios. A rigor estas conexões são chamadas de harmonias externas, e fazem parte das seis harmonias. Elas são ditas externas porque envolvem a parte material e visível do corpo, e são: as mãos estão em conexão com os pés, os cotovelos estão em conexão com os joelhos, e os ombros estão em conexão com os quadris. O fio de seda é o que torna estas conexões reais e concretas, e não apenas fruto da imaginação. O movimento dos ombros e quadris, uma vez que estas partes sejam unidas pelo fio de seda, passa a ser mecanicamente ligado (o mesmo ocorre com as mãos e pés, e cotovelos e joelhos). O fio de seda é esta ligação mecânica. Uma vez conectado o fio de seda, ele é muito frágil, e qualquer pequena perturbação pode quebrá-lo: no início basta uma mínima distração da concentração do aluno. Com o passar dos anos de treino, o fio de seda se fortalece, e passa a ser uma característica natural da postura do aluno, mas ainda é possível quebrar a conexão com um empurrão, por exemplo. Mas o potencial de fortalecimento do corpo conectado pelos fios de seda é muito superior ao do corpo que sabe usar apenas o membro diretamente envolvido em um movimento. Conforme o aluno progride o fio de seda fica cada vez mais forte, até que nem mesmo um oponente forte pode partí-lo. É neste ponto que começa a ser possível aplicar as técnicas do Taijiquan (tai chi chuan).

Comentários

 
A força é gerada não só pela inercia ou pela força mecanica, mas pelo tempo e pratica da mesma. Não se pode ignorar que o kung fu não se aprende em um minuto. Do meu ponto de vista, a força é alcançada quando se une a tecnica e o tempo de teino.
— David Alves

Exatamente. Há muitas expressões na China para lembrar isto, por exemplo: “aço forjado mil vezes”. Só pelo tempo de prática é possível modificar a forma do corpo, a forma de o corpo gerar força e mover-se, e refinar esta força. Estas transformações são lentas e requerem muito esforço para serem alcançadas.