Taijiquan Pro


Naturalidade

por Eduardo

O primeiro princípio do taijiquan é a naturalidade.

Ensinado pelo Grão-Mestre Chen Xiaowang. É preciso não confundir este ensinamento com os princípios técnicos da prática. Além disso, é necessário dizer que não se quer dizer que o taijiquan (tai chi chuan) deva ser praticado de modo a servir às características individuais de cada praticante – não existe nada que se assemelhe a “treinar o taijiquan (tai chi chuan) do meu jeito”. Os princípios técnicos continuam existindo, sendo precisamente definidos, e norteando a prática.

Certa feita, num dos seminários do Grão-Mestre no Brasil, um aluno perguntou porque era necessário praticar tanto, se afinal o taijiquan (tai chi chuan) tem como primeiro princípio a naturalidade. A resposta do Grão-Mestre foi:

Se fosse apenas natural, não seria necessário praticar. Primeiro pratica-se, depois torna-se natural.

O taijiquan (tai chi chuan) respeita integralmente o movimento fisiológico, portanto natural, do corpo humano. Durante o treinamento não são exercidas torções ou alongamentos antifisiológicos, pois isto inviabiliza o relaxamento necessário à boa prática.
A respiração também deve permanecer natural, e nunca deve ser forçada ou dirigida, pois desta maneira ela se conformará às necessidades e à possibilidade do praticante. A adequação da respiração ao movimento é um processo natural, que leva muito tempo e que ocorre muito gradualmente.
A mente deve estar em parte livre, em parte concentrada, ou seja: a própria prática e a necessidade de atenção para refinar o movimento levarão a um estado natural de concentração da mente.
E finalmente a força interna somente pode ser desenvolvida naturalmente, não se pode obrigar ao seu desenvolvimento. Tudo que pode ser feito é manter a postura correta e relaxar todo o corpo, e assim permitir o aparecimento natural da força. Por exemplo: na prática do zhanzhuang (zhan zhuang) o professor ajusta a postura do corpo do aluno, e o aluno mantém a postura. Não há nada que o aluno possa ou deva fazer além de ficar parado, pois o professor ajustou a postura de modo que as articulações do aluno estão o mais livres possível. Para que o aluno fique na postura o corpo tem obviamente que exercer força contra a gravidade – mas esta força não deve ser induzida ou comandada conscientemente pelo aluno, ela deve ser natural e espontânea. Se o aluno tentasse comandar esta força, ele faria força do modo como está acostumado, e não do modo como o professor quer que ele aprenda.

9 comentários sobre ‘Naturalidade’

Priscilla — 05 maio 2006 01:35
Essa é a primeira vez que visito seu site. Gostei muito do modo esclarecido com que explica a arte. Pratico jiu-jitsu á 5 meses, estou completamente apaixonada pelo esporte. Concordo plenamente com a visão comentada sobre a naturalidade que se segue de acordo com á prática e com a dedicação no aprendizado. Quando entrei no jiu-jitsu ñ conseguia controlar minha força, até pensei que ñ tinha força mas, penso que todos têem força, só que vc ñ consegue utilizá-la até que a prática lhe mostre de forma natural que vc têm força e como aplicá-la. Agora é lógico que para isso têm que existir dedicação, esta que aparece naturalmente de acordo com o seu gostar pela arte, e muito treinamento. Fiquei com dúvidas sobre o alongamento antifisiológico, pois talvez venho praticando sem entender. No jiu-jitsu como deve saber utilizamos torções e muito alongamento, estes que talvez venham a ser antifisiológicos e eu ñ saiba. Peço que me explique de uma forma mais detalhada como são esses alongamentos antifisiológicos. Obrigado pelo espaço e pelo ótimo site. Abracos!
Dagmar — 26 maio 2006 22:29
Olá Eduardo, O último parágrafo está confuso, pois ele entra em contradição com a frase anterior. se a mente deve estar parte livre, parte concentrada, então não basta ficar apenas imóvel e relaxar o corpo. Alguns mestres com quem já fiz a prática do Zhan Zhuang, e outros praticantes de Xing Yi, I Chuan, mencionam a visualização direcionando a energia chi, ki, ou energia psiquica. Esta naturalidade entendo como ausência de esforço físico. Apesar de usarmos os movimentos "naturais" como erguer ou baixar os braços, o uso da mente (imaginação, visualização,etc,) deve estar em ação, ou seja: Por fora imóvel por dentro dinâmico. Por isto o Zhan Zhaung é chamada de "Imobilidade Dinâmica". Um grande abraço e bons treinos, Dagmar
Eduardo — 31 maio 2006 10:28
Priscilla, Obrigado pela visita. O taijiquan (tai chi chuan) é muito diferente do jiu-jitsu, e eu não conheço nada sobre jiu-jitsu, portanto só posso falar a respeito do taijiquan (tai chi chuan). O taijiquan (tai chi chuan) utiliza posturas paradas e encadeamentos de movimentos intensivamente para o treinamento do corpo, e divulga-se amplamente que seus movimentos são espirais. O que queremos dizer é que é errado, no taijiquan (tai chi chuan), forçar estas espirais (por exemplo girar intencionalmente os membros). Todo o corpo deve seguir o movimento do centro do corpo. Em alguns textos didáticos lê-se às vezes que deve-se torcer as pernas ou os tornozelos desta ou daquela maneira para obter este ou aquele resultado. Isto é errado, e danoso para as articulações, em se tratando de taijiquan (tai chi chuan).
Eduardo — 31 maio 2006 11:00
Oi Dagmar, Você levanta uma questão importante e que muitas vezes causa dificuldades. O que eu aprendi foi o seguinte: Não se usa a imaginação, ou a mente, para dirigir o qi. Isto é ineficaz. Suponha que você está tentando empurrar alguém mais forte que você: não importa o quanto você se concentre, é inútli. O mesmo acontece com o qi, é inútil desejar que a energia se mova, e concentrar-se para isto. O que se faz é o seguinte: todo o corpo segue o centro do corpo quando este se move. O centro do corpo segue a mente. O movimento corrreto causa o movimento do qi. Isto quer dizer que a mente deve estar aplicada em executar a técnica corretamente, e o movimento da energia é um resultado natural do movimento do corpo segundo os princípios. No zhanzhuang (zhan zhuang), por exemplo, manter a postura correta e relaxar todo o corpo é mais do que o suficiente para ocupar a mente, na verdade exige uma concentração intensa. Em níveis muito avançados, move-se primeiro o qi, e o corpo segue. Mas isto não é imaginação, concentração ou vontade: isto é uma habilidade concreta que se desenvolve pelo treinamento. Ainda assim os textos clássicos fazem ressalvas para que o praticante, mesmo nesses níveis, não se concentre no qi em demasia e abandone o movimento correto. Um abraço!
Dil — 01 junho 2006 12:09
Eduardo, Este seu site é delicado e encantador. Estou começando a praticar yoga, sem fins "contorcionistas" (rs), mas sim de meditação e integração da mente com o corpo, o que, aliás, parece corresponder à essência da yoga. Tenho um excelente professor, aqui em São Paulo, com quem estou podendo caminhar nesta direção. Recentemente tenho sentido vontade também de praticar o Tai Chi. Gostaria de saber sua opinião sobre a união dessas práticas - da yoga e do Tai Chi. Obrigada, Dil.
Eduardo — 01 junho 2006 15:39
Oi Dil, Seja bem-vinda. Olhe, eu nunca pratiquei yoga, mas acho que você está certa - a essência do yoga é a união: entre a mente e o corpo, entre o homem e o cosmos. Sobre praticar yoga e taijiquan (tai chi chuan) ao mesmo tempo, eu diria o seguinte: estas duas artes foram desenvolvidas e aperfeiçoadas durante séculos, por pessoas que dedicaram-se integralmente a isto por todas as suas vidas. Estas pessoas, além de serem herdeiras de sabedorias milenares, viviam em abientes favoráveis ao desenvolvimento nas suas artes, tiveram como professores os maiores mestres disponíveis, e praticavam em tempo integral, por toda a vida. Por isto eu acredito que não é possível para nós, nos dias de hoje, e sendo pessoas comuns, com nossas vidas pessoais e profissionais para gerirmos, praticando apenas algumas horas por semana, melhorarmos artes tão profundas como o taijiquan (tai chi chuan) ou o yoga - ainda mais misturando as duas. Pelo que eu conheço de taijiquan (tai chi chuan), e pelo que eu observei até hoje de yoga, eu diria que embora alguns princípios quando enunciados verbalmente pareçam similares, a forma de estas duas práticas atuarem fisicamente sobre o corpo do praticante é diferente. As transformações que o taijiquan (tai chi chuan) e que o yoga operam no corpo dos alunos são diferentes. Embora seja mais dfícil de ver, por as transformções serem internas e sutis, seria como tentar praticar, digamos por exemplo, alterofilismo e ginástica olímpica ao mesmo tempo! Como seria possível para o corpo "compreender" os dois simultaneamente? Assim minha opinião é de que se alguém quer praticar taijiquan (tai chi chuan) ou yoga apenas como passatempos ou como um exercício físico comum, e com pouca intensidade, não faria mal praticar os dois ao mesmo tempo. Mas se alguém deseja praticar taijiquan (tai chi chuan) ou yoga de acordo com os pricípios mais profundos dessas artes, se deseja realmente compreendê-las e aprofundar-se nelas, é melhor escolher apenas uma delas. Os maiores mestres de ambas têm feito isto, por séculos. Obrigado pela sua visita, e pelo seu elogio!
Dil — 05 junho 2006 21:02
Boas palavras :-) Obrigada, ajudou-me a pensar sobre o assunto. Grande abraço.
Ana — 26 junho 2007 20:59
ola, eduardo! pela primeira estou tendo oportunidade de praticar tai chi chun (qi gong) e fui procurar ajuda na internet e encontrei este site que conseguiu me convencer a experimentar. mas ainda tenho algumas duvidas: depois de fazer a aula e aprender a respiração e a coluna correta, como posso usar no meu dia-a-dia?
Eduardo — 11 julho 2007 11:47
Oi Ana, Você está imaginando que vai praticar e aprender uma determinada postura na aula, e então vai aplicá-la no seu dia-a-dia. Não é assim que o aprendizado se dá. O aprendizado da postura correta requer uma transformação do corpo do aluno e por isto mesmo é muito lento. O corpo leva tempo para se modificar, e ao mesmo tempo que muda, uma nova postura e uma nova forma de usar o corpo vão sendo aprendidas. O processo leva anos. Por esta exposição você pode concluir que conforme o seu corpo vai mudando, naturalmente você vai mudando no seu dia-a-dia. Não se pensa nisso nas tarefas diárias, simplesmente seu corpo mudou e está fazendo as coisas de um outro jeito (como ficar em pé ou andar por exemplo).