Treinamento de força no Taijiquan

Treinamento de força no Taijiquan (Tai Chi Chuan)

No Ocidente, as pessoas frequentemente imaginam o Taijiquan (tai chi chuan) como uma opção fácil. Quem pode culpá-las, quando a maioria do que lhes é mostrado como Taijiquan (tai chi chuan) é uma versão tão diluída do sistema original dos campos de batalha? O vilarejo da família Chen, na província de Henan, na China, é o lugar onde foi criado o Taijiquan (tai chi chuan) 350 anos atrás. Seu criador, Chen Wangting (1600-1680), foi um general da dinastia Ming. Desde então, gerações sucessivas de lutadores da família Chen transmitiram e desenvolveram sua sistema. Muitos ganharam a vida como guarda-costas ou seguranças de caravanas comerciais que viajavam através do interior sem-lei da China. Mais recentemente, o Taijiquan (tai chi chuan) Chen foi usado para proteger a região de bandos de criminosos, ou para lutar contra invasores japoneses no meio do século XX. Praticar Taijiquan (tai chi chuan) em Chenjiagou permite que se resolva muitos mal-entendidos e que se experimente os métodos testados pelo tempo para adquirir habilidade.

O Taijiquan (tai chi chuan) Chen requer que o corpo seja usado de uma forma única e disciplinada, e tem um curriculum amplo abrangendo [Zhanzhuang], exercícios com um movimento único, formas à mãos desarmadas, formas com armas, e equipamentos suplementares de treinamento. Como em outras artes marciais, é essencial começar com o básico. Com tempo e prática consciente, o corpo é fortalecido e descobre-se uma nova maneira de mover-se. Embora o Taijiquan (tai chi chuan) Chen inclua muitos chutes e socos, em essência é um sistema de luta, agarramento e projeções a curto alcance. A realidade do combate exige que o praticante esteja bem treinado e confortável com a luta corpo-a-corpo próxima. O sistema é famoso por suas chaves em juntas, arremessos e derrubadas, todos construídos sobre sua singular energia em mola e em espiral.

Quando o praticante atinge um nível mais avançado, o uso de exercícios suplementares e de uma variedade de equipamentos de treinamento pode amplificar ainda mais sua energia. Habilidades como neutralizar, ceder, qinna e fajin são mais eficientes quando apoiadas em mais força física. Chen Ziqiang, treinador-chefe da Escola de Artes Marciais de Chenjiagou, explica que “para tornar-se um bom combatente de Taijiquan (tai chi chuan), o aluno deve ser proficiente em quatro áreas: suzhi (constituição, a condição física), liliang (força), jishu (habilidade técnica) e gongfu (habilidade cultivada). Não é possivel acelerar o gongfu (kung fu) nem a fluência numa grande variedade de técnicas. Estes aspectos só são possíveis com tempo e experiência. No entanto, é possível acelerar a aquisição de força física e o condicionamento do corpo”. Este artigo foca a segunda qualidade: força física.

Embora isto possa ser uma surpresa para muitos, treinamento de força não é uma novidade no Taijiquan (tai chi chuan). No passado, representava um aspecto de um processo de treinamento completo. Em Chenjiagou, no jardim da casa onde diz-se que o patriarca da 14ª Geração da Família Chen, Chen Changxing, ensionou a Yang Luchan, ainda pode-se encontrar uma pedra de 80kg que era usada para treinamento regular. Métodos tradicionais de treinamento de força, como sacudir o bastão e praticar com armas pesadas, continuam a ser usados até hoje. Por séculos, força, resistência e agilidade têm sido atributos físicos altamente valorizados no ambiente militar chinês. De acordo com o historiador militar Stanley Henning, o treinamento militar tem usado atividades como levantamento de peso, corrida de longa distância, saltos, escaladas, e natação concomitantemente ao desenvolvimento de proezas marciais. Os manuais do general Qi Jiguang, que inspiraram e influenciaram a criação do Taijiquan (tai chi chuan) por Chen Wangting, descreviam um treinamento abrangente que incluía “manter uma constituição geral adequada à luta por manter-se em forma, mãos e braços fortes por treinar com armas mais pesadas que as normais, pés e pernas fortes por correr mais de 500m sem precisar tomar fôlego e usar pesos nos tornozelos ao correr, e força e resistência gerais por treinar com armadura mais pesada que o normal”.

Chen Wangting passou pelos exames militares imperiais, quando os candidatos, além de demosntar habilidade com o arco a pé e em montaria, deviam fletir um arco de 6kg, brandir uma alabarda de 60kg e levantar uma pedra de 150kg. Naturalmente, ele incluiu exercícios similares no sistema que criou.

Levantar pedras pesadas é um meio de treinar a cintura e a parte inferior do corpo. Chen Ziqiang explica que “o método de treinamento de força é altamente especializado. Não se pratica para desenvolver ‘força burra’ (força bruta ou localizada). O que fazemos é um treinamento para a cintura. A força da mão é como o gancho que se usa para rebocar um carro. Você deve lembrar que sua mão é o gancho. Sua força está vindo da cintura e de como você empurra contra o chão. Combinando a força do carro e da corda. O gancho é apenas o instrumento que os conecta. Então, quando se levanta uma pedra pesada, é a força das pernas e da cintura”.

Também é popular, até hoje, como um meio de aumentar a força que pode ser transmitida pelo centro do corpo para a extremidade, o exercício de sacudir o bastão. O bastão tem pelo menos três metros de comprimento, e é usado para aumentar a força do corpo todo e a capacidade de explosão. O praticante treina uma forma que consiste de treze métodos condensados, ou pratica isoladamente movimentos repetidos. Conta-se que Chen Fake, o mestre da 17ª Geração, um dos mais famosos praticantes da era moderna, praticava diariamente trezentas repetições do exercício de sacudir o bastão. Em Chenjiagou os bastões e lanças são tipicamente feitos de uma madeira especial, esbranquiçada, chamada bailagan, uma espécie ao mesmo tempo forte e flexível que permite que o praticante transmita força, mas que flete ao absorver o impacto, impedindo dano à arma. Além de uma sequência de movimentos para treinamento, existem também exercícios em dupla com o bastão, para aumentar a habilidade de combate e a percepção dos praticantes.

A bola do Taiji é usada para fortalecer o tronco, condicionar a musculatura, e aumentar a força física. Conta-se histórias de mestres do passado treinando com bolas de pedra de até 60kg. Os alunos da escola de Taijiquan (tai chi chuan) de Chenjiagou usam atualmente bolas de basquete cheias de areia para praticar os movimentos de rotação e espiral peculiares ao sistema. O aluno, através de uma gama de movimentos torcionais, trabalha em direção a um estágio onde o movimento do dantian comanda o movimento da bola. Há também o taiji bang, um bastão curto usado para desenvolver habilidades de agarrar, travar e escapar. Normalmente do tamanho do antebraço, o bang é usado para torcer e alongar os tendões e aumentar a força da pegada e do antebraço.

O treinamento com armas é um outro meio de desenvolver força no curriculum do Taijiquan (tai chi chuan) Chen. As formas de armas mais praticadas são as de espada reta, sabre (ou facão), lança, e alabarda (ou guandao). Cada uma tem suas características próprias e oferece benefícios específicos de condicionamento. A espada treina a flexibilidade em toda a extensão do corpo, o sabre é rápido e explosivo e pode ser comparado ao treinamento pliométrico do esporte moderno, a lança treina a agilidade das pernas e a coordenação entre as partes alta e baixa do corpo. Um método comum de aumentar a força é praticar com armas mais pesadas do que as normais.

O guandao, também conhecido como “sabre da primavera e outono” ou menos poeticamente como “faca grande”, é considerado a artilharia pesada do Taijiquan (tai chi chuan). Diferentemente da lança e do bastão, o sabre da primavera e outono foi a arma mais empregada em campo pelos oficiais militares chineses. Devido à exclusividade e ao alto custo desta arma, ela tornou-se um símbolo de patente militar, e era frequentemente ornamentada e decorada. O nome guandao deriva do nome do lendário general chinês Guan Yu, chamado respeitosamente de Lorde Guan, do tumultuado período dos Três Reinos da história chinesa. Ele teria usado uma alabarda de 41kg. Esta também era a arma preferida do criador do Taijiquan (tai chi chuan), Chen Wangting. Por causa disto, dos seus feitos militares e da sua habilidade com o guandao, ele foi apelidado de “Igual a Guan Yu” (赛关公). A natureza dinâmica da forma de guandao, com suas mudanças bruscas de direção, curvas fechadas e movimentos com saltos explosivos, torna-a um instrumento maravilhoso de condicionamento físico.

Os praticantes de hoje usam armas variando de um ou dois a mais de vinte quilos. Sua prática é baseada na fundamentação profunda das habilidades centrais do Taijiquan (tai chi chuan), uma vez que exige uma base estável, boa força na parte superior do corpo, e excelente consciência espacial. Embora raramente visto na maior parte do mundo, dentro de Chenjiagou o conhecimento de uma grande variedade de armas tradicionais foi preservado até o presente. Algumas, como o bastão longo de duas partes, evoluíram de instrumentos de agricultura para serem gradualmente incorporados ao conteúdo do armamento do Taijiquan (tai chi chuan) da Família Chen. Outras vieram diretamente do campo de batalha. Além das armas mencionadas acima, hoje também se pratica com espadas duplas, sabres duplos, clavas duplas, e ainda as formas de bastão de três e de oito movimentos. Manter a tradição de treinamento destas armas chinesas clássicas aumenta a habilidade geral do praticante, preserva uma linha ininterrupta de cultura marcial e aumenta grandemente a aptidão física e cardiovascular.

Comentários

 
E não é somente o estilo Chen que utiliza as chaves, torções, projeções, etc. Treinar Chin Na é dar um salto qualitativo enorme no que se refere a sensibilidade para a luta e para a auto-defesa, sem o qual o Taijiquan (tai chi chuan) continua sendo eficiente enquanto promoção da saúde, mas incompleto enquanto sistema de arte marcial. Quanto ao treinamento de força, da forma como Taijiquan (tai chi chuan) é ensinado aqui no Brasil, e no ocidente todo, não vinga. As pessoas querem resultados rápidos, e força se obtém a médio e longo prazo. Ganhar força rápido só para os privilegiados geneticamente. Em geral as pessoas não estão muito afim de fazer esforço físico. Esse tipo de treinamento implicará inclusive na alteração de hábitos alimentares, etc. Mudança de mentalidade não é fácil de conseguir.
— Alexandre