Acalme-se, mantenha uma boa postura

Acalme-se, mantenha uma boa postura

por Kimberly Ivy, discípula de 20ª geração do Grão-Mestre Chen Xiaowang

Afaste os pés, abertura dos ombros. Relaxe sua espinha. Acalme-se. Mantenha boa postura.Chen Xiaowang

Este é o mantra de abertura de qualquer seminário do Grão-Mestre Chen Xiaowang. Nós o ouvimos em Seattle, em San Diego, em Praga, em São Petersburgo, ou aqui mesmo em Chenjiagou. É reconfortante ouvir a mesma instrução, ao redor de todo o mundo, desta maneira. Ela traz nós alunos ao centro, em meio às nossas diferentes experiências e infinitas histórias passadas, de um modo muito pragmático. É o grande nivelador, esta instrução de acalmar-se e manter boa postura, e em troca do meu investimento em meio a tantas décadas de prática, de sacrifício e de generosidade do Grão-Mestre Chen Xiaowang, esta instrução é a sua maior oferta.

Eu costumava pensar que o Grão-Mestre Chen Xiaowang forjou esta instrução somente pela observação das dezenas de milhares de alunos que ele orientou durante as muitas décadas da sua carreira. Ele penetra num mar de humanidade, mergulhando fundo para buscar o modo mais direto e eficiente de resolver desvios do corpo e da mente. No entanto, conforme eu o conheço melhor com o passar dos anos, vejo que provavelmente este também é seu mantra pessoal para manter-se estável e centrado, mesmo com a sua vida de proporções míticas. Aqui na China, paparazzi sacam e acionam suas câmeras na esperança de conseguir aquela imagem incrível de um fajin em pleno ar, oficiais do governo saltam um após o outro dos seus carros pretos reluzentes e interrompem o seminário para congratular-se com ele, e diante de todos nós, ele responde com palavras e comportamento humildes e perfeitamente de acordo com o protocolo. Bandos de turistas, alguns de capacete vermelho em suas bicicletas, afluem ao vilarejo por terem ouvido dizer que ele estaria ali. Bajulam-no, e ele, gracioso como sempre, concede a cada um uma foto. Enquanto isto, ele conduz um seminário de cinco horas diárias conosco, certifica-se de que estejamos bem (“Se houver qualquer problema, falem comigo”), e sem hesitação, oferece uma demonstração que leva a maioria de nós às lágrimas. Tudo isto sob o mesmo frio que nós sentimos.

Sempre que estou próxima ao Grão-Mestre Chen Xiaowang, fico comovida pela sua história de vida. Tendo nascido num vilarejo rural, e sobrevivido com sua descendência à guerra, à fome e à Revolução Cultural, agora vive uma revolução cultural de outro tipo: crescimento maciço, bolsões emergentes de riqueza ao lado da pobreza insidiosa, enquanto o Império do Centro respira tanta poluição virtual quanto do ar. Ele é elegante e dignamente o Patriarca da 19ª Geração da jóia cultural do seu país. O Grão-Mestre é também um, dentre uma cultura de mais de um bilhão de pessoas, que está despontando no cenário mundial a uma velocidade espantosa. Quando eu treino com ele, penso sobre um homem de 64 anos de idade que é também um homem simples de um pequeno vilarejo na China, que aprecia calma profunda e quietude. E então ele nos diz, e a si mesmo, para abrimos os pés na largura dos ombros, relaxarmos nossas espinhas, acalmarmo-nos e mantermos uma boa postura.

Quando viajo para treinar, também o faço para encontrar e dividir o local de treino com pessoas incríveis de todo o mundo, e para enriquecer-me profundamente ao conhecer terras e culturas diferentes. Nada substitui a experiência de rir junto com um idoso do vilarejo, de sentir o cheiro de um rebanho de ovelhas e seu pastor, e ouvir um “hallo!” saltar da boca de uma menina que passa rápido na sua bicicleta rosa. Sempre foi importante para mim provar de comida diferente, e respirar ar diferente. É bom – não, é essencial sair do cercadinho cultural, mesmo se for desconfortável – talvez exatamente isto seja necessário. Talvez sentir-se um pouco desconfortável seja o pequeno preço a pagar para ganhar a visão de que foi apenas a sorte que lançou-me do ventre materno para dentro de uma vida privilegiada e confortável. Para o Grão-Mestre Chen Xiaowang foi um pouco diferente. Certa vez, cedo no nosso relacionamento de mestre-discípulo, perguntei-lhe quando em sua vida ele tinha se dado conta de que tinha nascido numa família predestinada. Ele respondeu simplesmente, “muito cedo”. Na minha própria vida privilegiada, num país cheio de confortos, com liberdade de escolhas e meu livre arbítrio para guiar-me, o Taijiquan (tai chi chuan) foi uma escolha. Para o Grão-Mestre Chen Xiaowang, no entanto, esse não foi o caso.

Na cerimônia de discipulado, no início desta semana, ele disse que gostaria de ver o mundo todo tornar-se mais forte através do Taijiquan (tai chi chuan). Alguns poderiam ver isto como ambição, mas somente aqueles que não o conhecem. O futuro olhará para esta época e saberá que sem o Grão-Mestre Chen Xiaowang, a jóia da China e do mundo teria se tornado algo muito diferente. É através dos seus esforços heróicos, belas formas e rica história que o Taijiquan (tai chi chuan) continuará além das nossas vidas. E quando nosso mundo explodir como seu fajin, seu mantra pessoal, “acalme-se, mantenha boa postura”, viverá nos seus alunos.