Wuji, Taiji e Tai Chi Chuan

Wuji, Taiji e Taijiquan (Tai Chi Chuan)

Nos dias 17 a 20 de Março de 2005 o Mestre Jan Silberstorff ministrou seu segundo seminário no Brasil, em Salvador. Jan esteve pela primeira vez no Brasil em Novembro de 2002 para assistir ao seminário final do Grão-Mestre Chen Xiaowang no país, e retorna anualmente para ministrar seminários desde 2004. Jan Silberstorff é o mais habilidoso discípulo do Grão-Mestre Chen Xiaowang, e participou com o Grão-Mestre da fundação da World Chen Xiaowang Taijiquan (tai chi chuan) Association, tornando-se presidente da WCTAG, a maior associação de Taijiquan (tai chi chuan) do mundo em número de associados.

O seminário foi precedido por uma palestra, quando Jan explicou como se dá o aprendizado do Taijiquan (tai chi chuan), os conceitos de wuji e taiji, e respondeu à perguntas dos presentes. Abaixo, a transcrição da palestra e das respostas:

Muito simplesmente falando, o taijiquan (tai chi chuan) é uma antiga arte marcial chinesa, com uma grande capacidade de curar. (…) É desta forma que o taijiquan (tai chi chuan) funciona: primeiro você deve curar a você mesmo, e só então você pode curar outras pessoas – é por isto que o principal trabalho do taijiquan (tai chi chuan) é trabalhar com você mesmo. É através da experiência de trabalhar consigo próprio que você compreende como a sua mente e como o seu corpo funcionam, e após esta compreensão é que você pode ver isto nos outros. Em geral há duas formas de aprender taijiquan (tai chi chuan): a primeira é através de livros e de vídeos, e a segunda é ter um professor. A primeira forma leva você a um tipo de ginástica suave, o que não chega a ser um problema muito grave – depois de alguns anos você pode vir a desenvolver alguns problemas nos joelhos, mas não muito sérios… Já a segunda forma significa que se o professor tem conhecimento, você pode mergulhar profundamente no assunto. Se há um problema de saúde nos ossos ou nos músculos, nós podemos encarar da seguinte forma: ninguém é completamente saudável, todos têm algum problema mesmo que pequeno, e mesmo se alguém o fosse ainda poderia fortalecer-se e progredir para um estado melhor. Assim é necessário ter um professor que possa corrigí-lo individualmente. É inútil ter um professor que apenas faça os movimentos enquanto os alunos seguem, isto é o mesmo que assitir a um vídeo. Um professor deve corrigir todos os seus movimentos individualmente, deve conversar com você individualmente sobre os princípios de modo que o conhecimento possa ser passado de uma pessoa para a outra, e então todas as perguntas podem ser respondidas diretamente. Não existe um padrão – como praticar se você tem artrose, se você tem um desvio de coluna, se você tem depressão? Não há resposta padronizada. O professor deve ver o aluno, e a partir do conhecimento sobre a circulação da energia no próprio corpo, o professor deve saber como corrigir o aluno de modo que este encontre o melhor centro, a posição melhor centrada possível para esta pessoa. Isto não será o mesmo para outra pessoa, cada pessoa precisa encontrar o seu centro individual. Em Hamburgo, na Alemanha, eu ensino em aulas particulares às sextas-feiras, e vários dos alunos são enviados por médicos. Eu não sou médico nem tenho nenhuma formação na área de saúde, mas no meu país eu sou pago pelos seguros-saúde destes alunos pelas aulas por causa do sucesso para o tratamento deles. Funciona muito bem, mas é necessário trabalhar com a pessoa diretamente.

Primeiro, o que é taiji: taiji é este símbolo (mostrando o símbolo do yin e do yang). Este é o diagrama do taiji. Mas o taiji vem do wuji. wuji é simbolizado pelo círculo vazio, que é o símbolo da unidade – da idéia de que tudo vem desta unidade. Não há nada “fora” do círculo, e o símbolo é circular porque não tem início nem fim, assim não há nem o tempo. Tudo vem do wuji, deste vazio que não pode ser chamado assim porque ele não é verdadeiramente nulo, pois potencialmente tudo está contido nele. Não há mudança, nem tempo, nem espaço, somente a unidade – nada, mas ao mesmo tempo tudo, porque não há separação. Do wuji naturalmente surge o taiji: o wuji divide-se espontaneamente no yin e no yang. Da combinação do yin e do yang surge a interação entre eles, e este é o “três”, e do “três” vêm todas as coisas. Nós vivemos no estado do taiji, em que as coisas mudam e têm um início e um fim. O objetivo mais alto da prática é retornar ao estado do wuji, onde não há iníco nem fim, nem mudança, somente a eternidade. A idéia é compreender o estado de taiji, para podermos retornar ao estado do wuji. O que nós fazemos na nossa prática de taijiquan (tai chi chuan) é primeiro encontrar uma condição de estabilidade neste estado atual de instabilidade – mas como fazê-lo? Nós o fazemos ao tentar trazer os opostos do yin e yang a uma situação de equilíbrio. Observem o síbolo do taiji: em algumas áreas há mais yin do que yang, em outras há mais yang que yin, em outras a proporção é quase a mesma. Há sempre uma pequena diferença, nunca encontramos exatamente 50% e 50%. Como nós os equilibramos? Sempre há uma pequena diferença, como no tempo: há um dia nublado com chuva, noutro há nuvens e sol, noutros céu claro, para nós é o mesmo: um dia melhor, outro pior, um dia felizes, outro menos, e nem sempre conhecemos a causa. Harmonizar o yin e o yang significa primeiro conhecer e aceitar isto: se o próprio céu não é estável, como nós poderíamos sê-lo? Após aceitar isto, podemos examinar, e descobrir como podemos nos mover dentro destas mudanças. Na prática do taijiquan (tai chi chuan): primeiro nós tentamos encontrar uma posição do corpo em que nós estamos muito centrados, em que tudo está conectado e tem espaço suficiente e pode mover-se em unidade, em que o corpo está em unidade. Isto é feito fisicamente, primeiro externamente e depois internamente. Externamente significa: nós temos que ficar numa posição em que o nosso centro físico e o nosso centro energético, o dantian, estejam no mesmo lugar, coincidindo – deve haver um só centro, não dois centros diferentes. Se nós conseguimos isto, quer dizer que os ombros e quadris estarão posicionados de forma que podem se “conectar”, e o mesmo se aplica aos cotovelos e joelhos, e às mãos e pés. Quando isto acontece, então é que é possível relaxar realmente o corpo, e num nível mais profundo de relaxamento há algo que se “abre” dentro do corpo, e quando esta abertura que é chamada em chinês de fangsong acontece, é que começamos a praticar realmente taijiquan (tai chi chuan). Internamente os ombros e os quadris entram em contato, e isto é o que é chamado de “fio de seda”. Da mesma forma os cotovelos se conectam aos joelhos, e as mãos se conectam aos pés. A consciência então se aprofunda naturalmente, e deve-se compreender que mudanças internas, que ajustes precisam ser feitos internamente para que a energia possa retornar para o dantian, e então possa se expandir e fluir naturalmente para todo o corpo. Se nós temos a estrutura correta, se todo o corpo está conectado como uma unidade, então se começarmos a nos mover a partir do centro, todo o corpo se moverá porque tudo está conectado ao centro, como uma roda. Isto é o desenrolar da seda, todas as conexões são chamadas fios de seda – porque elas são fáceis de se partirem, mas se você as pressionar demais para que se conectem, é fácil de elas se emaranharem. Tudo tem que estar conectado ao centro, nunca se deve perder a estrutura que é praticada na postura parada enquanto se executa os movimentos. (…) Por causa da sua prática da postura parada, da sua estrutura básica de unidade, se você somente ficar parado na postura nao há mudança, porque não há movimento – a energia retorna para o dantian e se expande deste para todo o corpo. Não é o wuji real ainda, mas é como o wuji, é a idéia do wuji dentro do estado de dualidade. Se você não perder esta estrutura em todos os movimentos, então você não está perdendo o seu nível de unidade (nível, e não 100% de unidade, você tem um nível de unidade que aumenta com a sua prática continuamente).

Algumas das perguntas e respostas:

aluno: Como devo sincronizar a respiração com os movimentos durante a forma?
Jan: O Grão-Mestre Chen Xiaowang sempre diz, “se você tem a postura errada e a respiração correta, você tem dois erros; se você tem a postura errada e a respiração errada, você tem somente um erro, porque a respiração está de acordo com a postura”. Isto quer dizer que é inútil tentar forçar a respiração a sincronizar-se com o movimento usando a sua vontade ou concentração. Da mesma forma que ao empurrar um adversário você não consegue fazê-lo apenas porque deseja, também não é possível respirar corretamente apenas por querer ou por comandar a respiração com a mente. Não se deve interferir nunca na respiração, deve-se respirar naturalmente e a respiração estará de acordo com a sua postura, por si só. Apenas no “quarto nível de habilidade”, que é um nível elevadíssimo de gongfu (kung fu), o praticante tem a opção de trabalhar com a respiração de uma determinada forma – mas até lá a respiração deve ser natural. Se você tentar fazer a sua respiração se aprofundar forçosamente com a sua mente a única coisa que conseguirá será mais rigidez. Primeiro é necessário corrigir o seu corpo, então você pode relaxar, e então a respiração automatica e naturalmente se aprofunda, mas isto não é controlado pela sua mente. A arte marcial do taijiquan (tai chi chuan) não é “arte marcial do controle da mente”: mais tarde é necessário chegar a um estado de não-mente, de mente vazia, o que quer dizer que não resta mente alguma que controle o que quer que seja, não há “eu quero” ou “eu desejo”, ou “eu tenho que”. O modo do taijiquan (tai chi chuan) é a naturalidade, então o modo que a respiração deve ser é do mesmo modo que o seu corpo é, a respiração deve ser natural.

aluno: Por que quando assistimos a lutas em competições vemos que os lutadores movimentam as pernas agilmente, ou ficam saltando continuamente, no entanto aqui estamos praticando uma base muito estável e firme?
Jan: Todos os sistemas tradicionais (antigos) treinam o praticante para adotar uma postura firme e estável. O modo de mover-se saltando continuamente é um fenômeno moderno, aplicável somente a competições, e está calcado em algumas premissas: que há dois competidores que concordam em lutar, que há um conjunto de regras a serem respeitadas, e que há um tempo determinado de duração da luta e dos rounds. Numa situação real nenhuma destas premissas é verdadeira: em geral somente um dos envolvidos “concordou” em lutar – o outro normalmente é surpreendido de assalto, não existem regras – numa guerra o objetivo é eliminar o inimigo, e a duração do confronto é imprevisível – pode durar desde apenas poucos segundos, impedindo que um “estude” o outro, até um tempo bem mais extenso como numa batalha em campo aberto. Nestas situações reais o movimento em pequenos saltos não é apenas inútil: é o caminho certo para a morte.