Tuishou, forma e habilidade

Tuishou, forma e habilidade no Tai Chi Chuan

Os erros que você comete no tuishou são os mesmos erros que você comete na forma.Chen Xiaowang

Numa aula particular em outubro de 1999, o Grão-Mestre Chen Xiaowang disse-me isto, quando perguntei-lhe como praticar Tuishou.
Tuishou significa empurrar com as mãos. Basicamente pode-se praticar de dois modos: seguindo uma coreografia, em que os movimentos dos dois parceiros são pré-conhecidos e programados, ou de uma forma competitiva, quando os dois praticantes são adversários e empurram para desequilibrar um ao outro. Existem vários níveis de complexidade crescente para os dois tipos de prática.

O principal meio de desenvolver a gongfu (kung fu) no Taijiquan (tai chi chuan) é a prática da forma, a sequência de movimentos encadeados. Mas é relativamente fácil adquirir uma boa aparência da forma, sem ter nenhuma habilidade especial. Como, então, saber se existe mesmo alguma habilidade debaixo da casca da aparência exterior? Como julgar o próprio nível de compreensão dos princípios, ou o nível de habilidade de outra pessoa?
Esta é uma das várias utilidades do tuishou. Suponhamos dois praticantes, que vão empurrar um ao outro, na forma mais básica do exercício: sem mover os pés. Vamos estabelecer que o praticante A vá tentar ficar estável, enquanto B tenta empurrá-lo. Digamos que B não consegue empurrar A, e quando trocam de papel, B não consegue ficar estável quando A o empurra.

Está claro que B não tem, no mesmo nível que A, duas habilidades fundamentais do Taijiquan (tai chi chuan): estabilidade, e controle da força. Isto não siginifica que A seja excelente, longe disto, apenas sua compreensão e aplicação dos princípios são melhores que as de B. Não importa quão fluidos ou belos sejam os movimentos de B, não importa quão baixas sejam suas posturas, nem quantas formas B saiba reproduzir: a habilidade e a força de B são inferiores, e sua forma contém os mesmos erros que o seu tuishou. Os erros aparecem quando se é exposto a uma força contrária, e B pode usar o insight oferecido pela prática do tuishou competitivo para aprimorar seu Taijiquan (tai chi chuan).

Comentários dos leitores

 
 
Meu professor (mestre Wong) diz que praticar o Taijiquan sem fazer o Tui Sau (tui shou) é como se alimentar e não sentir o gosto da comida. Uma vez perguntei, como se faz a aplicação da forma ? Ele dizia que o Tui Sau explica a forma (kati). Então entendi quando estava praticando o Tui sau (tui shou) de forma espontanea que os movimentos do kati apareciam naturalmente como na defesa.
Este seu artigo complementa este entendimento que não havia percebido, ou seja, o Tui Shou avalia a qualidade do seu movimento, corretíssimo.
— Dagmar

Se os erros cometidos no Tuishou são os mesmos da forma, eu pergunto: a forma não deveria ter sido corrigida pelo professor, a fim de se aprimortar o máximo possivel a sua execução? Eu tenho consciência de que praticar a forma por si só não é o mesmo que a prática a dois, mas a correção nas posturas e a explicação sobre cada movimento já seriam de grande ajuda ao aluno, para que pudesse desenvolver os exercícios a dois com mais harmonia.
— Edison Batista Cícero

A correção pelo professor é uma maneira de aprimorar a forma, e a prática do tuishou é outra maneira diferente. É como ver a mesma coisa (o erro) por dois ângulos diferentes. Por um lado, o professor mostra o que está errado, e o aluno procura seguir a orientação ou modificar a postura. Por outro lado, a força exercida em oposição pelo adversário mostra o mesmo erro de outro jeito, e o aluno precisa enxergá-lo sozinho – o que lhe dá uma outra ótica. As duas óticas se somam. É claro que para ser de algum proveito, a prática do tuishou precisa ser precedida pela prática da forma e das posturas, com a correção do professor – caso contrário, corre-se o risco de cair numa mera queda-de-braço.