Para obter o Tao, Yin e Yang têm que estar harmonizados

Para obter o Tao, Yin e Yang têm que estar harmonizados

Tuishou, os Oito Trigramas e 64 Hexagramas

Yin e Yang brotam do estado sem-forma do Wuji (unidade), e através da sua interação as dez mil coisas são criadas. O desenvolvimento deste fenômeno é ilustrado com mais detalhe nas Quatro Imagens, nos Oito Trigramas e nos 64 Hexagramas. Similaridades a este mito de criação podem ser encontradas nas imagens do misticismo cristão tanto quanto nas descobertas da física moderna. Neste artigo, Jan Silberstorff estabelece parâmetros para o progresso da prática do tuishou através das trocas do Yin e do Yang. Em sua essência, a prática do tuishou está direcionada para cada vez mais perceber e utilizar a própria energia assim como a do adversário. Na visão do autor, o resultado de um confronto – e se este envolverá uma luta física ou se será decidido no primeiro contato – depende de quão grande é a diferença entre a sensibilidade que os adversários têm dos processos energéticos. Aqueles que, através do treinamento dedicado, encontram a completa harmonia entre o Yin e o Yang, retornam ao estado do Wuji.

Wuji, o estado de Unidade – que não pode ser diferenciado, uma vez que é indiviso e não pode ser separado seja do que for – contém apenas o potencial para todas as coisas, formando uma única singularidade. Este estado de Wuji divide-se por dentro, espontaneamente (ziran) em opostos, em Yin e Yang. Estes são chamados Liang Yi, ou Duas Aparências. A interação entre estes dois é chamada de Três, e das infinitas interações entre estes três elementos as dez mil coisas nascem – na essência, tudo aquilo que conhecemos e que não conhecemos.
Assim, Laozi explicou: “O um gera o dois, o dois gera o três, e o três gera as dez mil coisas”.
Consequentemente, as primeiras interações destes três geram quatro outros elementos: yin, yang e as combinações de shaoyin e shaoyang (yin menor e yang menor). Estes quatro elementos são por sua vez chamados de Si Xiang ou Quatro Imagens. Através de interações subsequentes os Oito Trigramas emergem: qian (céu), kun (terra), zhen (trovão), sun (madeira), kan (água), li (fogo), gen (montanha), e dui (lago). Estes Oito Trigramas continuam a interagir e geram os 64 Hexagramas.
Examinando a história da criação humana de um ponto de vista místico-religioso, nós descobrimos que há um criador, que no estado anterior à criação, era o todo indiviso. Uma vez que não havia criação, só havia Um. Assim que o Um reconhece-se como o Um, passa a haver Dois: o sujeito e o objeto, o observador e o observado. Ambos são um e o mesmo, uma vez que o observador meramente se reconhece. No misticismo cristão isto equivale ao via-a-ser do Pai e do Filho. A relação entre observador e observado é amor, nesse caso o Espírito Santo, que equivale ao Três. Tudo que nós conhecemos e não conhecemos emerge da interação entre Pai e Filho, pelo Espírito Santo – conhecidos como a Santíssima Trindade.
Vamos observar o mesmo do ponto de vista científico, para completar o quadro. O vácuo é insubstancial e basicamente o mesmo em todos os lugares, uma singularidade única (o Um). Nos instantes iniciais em que o universo começa a se expandir, o vácuo se quebra dando origem às partículas e anti-partículas (o Dois). Pela existência destas surgem as interações entre elas (o Três), e através do Três todas os subcomponentes dos átomos vêm a ser criados, e então os átomos e tudo que é substancial. Se uma partícula vem a chocar-se com a anti-partícula correspondente, resulta emissão de luz e ambas desaparecem no vácuo.
Aquele que pode desapegar-se de si mesmo e retornar totalmente à fonte de sua alma, sua origem, unir-se-á lá com Deus, que é um e o mesmo que a fonte dessa alma, e nunca deixou a origem. Esta pessoa retornará ao estado indiferenciado de Unidade.
“Nós alcançamos o Tao através da harmonização do Yin e do Yang”, o abade Taoísta Ren Farong uma vez me disse. Simplificadamente, isto quer dizer que a mais alta harmonia entre o Yin e o Yang é atingida quando eles se reunem de modo a perderem sua individualidade e dissolverem-se um no outro, e assim retornarem à Unidade, ao Wuji.
Assim, o conceito de Yin e Yang não é meramente uma idéia ou um conceito inventado pela humanidade no contexto de uma certa época ou cultura. É a observação pura da natureza, como ela é, sempre foi e sempre será. Pelo menos, nenhum erro foi encontrado até agora. Deste modo, ciência, religião e filosofia simplesmente representam várias partes de um mesmo veículo.
É claro que Yin e Yang representam apenas um conceito metafórico, e não são a realidade propriamente dita. Mas isto ajuda a humanidade, limitada pelo intelecto e a razão, a ter uma percepção direta sobre a essência do ser. Conscientizações reais, no entanto, não podem ser feitas pelo intelecto através do raciocínio lógico. Elas só podem ser alcançadas através da experiência transcedental prática. Para este fim, a prática é essencial, e o Taijiquan (tai chi chuan) é uma tal prática.
Minhas explicações sobre este conceito em relação ao tuishou podem ser entendidas logicamente, mas só podem ser experienciadas através da prática correta e persistente. No entanto, eu espero oferecer orientações que evitem que se perca a experiência, e que efetivamente direcionem a prática para ela. Taijiquan (tai chi chuan) precisa ser praticado em grande quantidade, porém, mesmo o mais ardoroso estudante perder-se-á, se o mapa em que ele confiar contiver erros.

Diferenciando as energias Yin e Yang

Uma vez que tenhamos desenvolvido a estrutura básica do corpo e da mente, em que todos os componentes agem como uma unidade – nós praticamos isto através da meditação em pé (zhanzhuang (zhan zhuang)) – atingimos um estado que chamarei de Wuji temporário. Este é um estado de unidade dentro do nosso estado habitual, dentro da dualidade. Enquanto na dualidade, eu não posso desenvolver nada imutável, de outra forma eu não estaria na dualidade. Por isto, eu chamo este estado de um estado temporário. Eu começo a mover-me dentro desta unidade, sem vir a perdê-la novamente. Se eu tiver sucesso, a liberdade interior que se segue permite-me relaxar e soltar tudo. Minha energia inata será, uma vez mais, livre para circular nos canais correspondentes. Eu apoio isto com minha consciência (chansigong e formas).
Basicamente, há duas expressões dessa energia: uma começa no centro e flui para fora, até as pontas dos dedos e dos artelhos, enquanto a outra retorna das extremidades de volta ao centro. Uma expande-se, a outra recolhe-se. Como sabemos, expansão é considerada uma característica masculina, expressada na construção de arranha-céus e na promoção de grandes guerras para obtenção de fama e honra, etc. Assim, chamamos a energia que se expande de Yang. Qualidades serenas e protetoras, expressas pela modéstia e humildade, significando uma tendência de recolhimento são consideradas características femininas. Assim, chamamos a energia que se contrai de Yin. Isto é como a maré enchente e a maré vazante.
Com o tempo, eu experimento a relação entre Yin e Yang dentro de mim mesmo, de modo completamente autêntico e direto. Isto quer dizer que eu tenho uma percepção vaga do Wuji, e do Taiji emergindo dele, bem como das aparências do Yin e do Yang. Em um certo grau, a mera teoria tornou-se, já, experiência. Assim, quando eu agora pratico tuishou com um parceiro, eu devo ser capaz de crescer além de mim mesmo, o que quer dizer guiar meu fluxo de energia além das pontas dos meus dedos e através do corpo da outra pessoa, até o seu centro. Ao mesmo tempo, eu devo estar consciente da sua força e ser capaz de dispersá-la, de modo que ela não possa me afetar. No entanto, a última proposição quer dizer que eu devo ser capaz de sentir e compreender sua força (tingjin e dongjin). Grosseiramente, isto seria reconhecer sua característica básica como Yin (cedendo) ou Yang (avançando). Neste ponto eu devo ser capaz de reconhecer as duas aparências não somente em mim, como também no meu oponente. Somente então eu poderei redirecionar sua força (huajin) e descarregar minha própria energia de modo sensato (fajin). Deve ser mencionado que nós estamos falando de uma percepção energética, e não tanto de ver movimentos externos.

Ataque e defesa simultâneos

Conforme eu me aprofundo mais nas experiências do meu mundo interior, minhas habilidades no Taijiquan (tai chi chuan) aumentam, e eu percebo um nível além do meu fluxo de energia aparente. Se antes eu podia distinguir os dois “peixes” dentro do símbolo do Taiji, o que queria dizer uma situação excludente, agora eu posso reconhecer os dois pontos dentro dos “peixes”: um dentro do outro. Agora, eu experimento um fluxo Yin virtualmente por trás do meu fluxo Yang, e vice-versa. Como resultado, meus movimentos tornaram-se mais sutis, e eu aprendo a criar dois estados de energia dentro de um único movimento. Se eu posso também reconhecer isto no meu oponente, eu em geral compreendo-o mais do que ele mesmo. A maioria dos estudantes de Taijiquan (tai chi chuan) pode apreender somente – se tanto – o primeiro, mais aparente, fluxo de energia, mas não o que está por trás deste.
É neste sentido que eu compreendo o que Chen Wangting queria dizer com a seguinte frase: “ninguém me conhece, enquanto eu conheço a todos”. Eu compreendo meu oponente melhor do ele próprio, e ainda, ele será incapaz de seguir-se no meu nível de movimento. Eu cheguei agora ao nível das Quatro Imagens (Si Xiang).

Wuji, Taiji, Duas Aparências, Quatro Imagens, Oito Trigramas

No nível das Duas Aparências, pode-se observar o seguinte quando duas pessoas praticam tuishou: elas podem empurrar-se mutuamente, ou pode ser que um empurre enquanto o outro cede. Se os dois cedem ao mesmo tempo, não há “luta”. No entanto, no nível das Quatro Imagens, é possível empurrar e ceder ao mesmo tempo. Enquanto eu estou no nível das Duas Aparências, uma expressão disto só é possível com os dois braços, em estéreo: eu avanço com um lado enquanto retrocedo com o outro. Quando eu atinjo o nível das Quatro Imagens, eu posso fazer as duas coisas dentro do mesmo movimento. Isto acontece porque agora eu tenho à minha disposição duas linhas yin/yang por movimento, em contraste com ter somente uma anteriormente. Uma defesa simultânea a um ataque, usando dois movimentos diferentes com os dois braços, ainda está no nível das Duas Aparências. Eu somente atingi o nível das Quatro Imagens quando as duas coisas podem acontecer dentro de um único e mesmo movimento.
Mas com o que se parece visualmente a capacidade de expressar Yin e Yang simultaneamente num único movimento? Isto nos leva ao fenômeno que é uma das razões porquê o Taijiquan (tai chi chuan) é tão famoso. Se eu empurro contra um oponente que é mais forte que eu eu, não há chance de que eu consiga penetrar. Nós dois temos a mesma forma de energia (força), e ele simplesmente tem mais do que eu. Se, no entanto, eu estou no nível das Quatro Imagens, eu não apenas posso simplesmente empurrar, eu posso empurrar e ceder em um único e mesmo movimento. Isto quer dizer que meu braço continua a avançar contra a força dele, ainda que eu ceda em todos os pontos de contato que favoreçam a força dele, e penetre em todas as aberturas.
Por exemplo, quando a mão de alguém toca um oponente, existe uma quantidade infinita de segmentos individuais. Uma pessoa não pode ser igual em todas as partes do seu corpo, especialmente se levarmos em consideração áreas muito pequenas. Ao contrário: o Buddha descobriu, 2500 anos atrás, que nosso corpo continuamente decai e se regenera ao mesmo tempo, que não há nada que seja permanente nos nossos corpos. Diz-se que ele experimentou isto em primeira mão durante sua meditação. Nós fazemos uma experiência conceitualmente similar no Taijiquan (tai chi chuan), e isto pode ser útil durante a prática do tuishou.
Num determinado instante no tempo, uma pessoa insensível percebe o corpo como igual em todas as suas partes. Esta pessoa só sente mudança em longos intervalos de tempo. Uma pessoa sensível, no entanto, está consciente destas mudanças a cada instante pequeno, e especialmente no local onde sua mão toca a outra pessoa. Por que mais alguém seria capaz de curar tão bem com o Taijiquan (tai chi chuan)?
Devido ao processo descrito acima, eu posso fluir através do corpo do oponente, exatamente como água fluindo para baixo numa montanha. Onde o trajeto estiver livre, a água flui diretamente, e onde quer que o trajeto esteja impedido, ela flui em torno do obstáculo.
E a melhor parte é: meu oponente não pode fazer nada contra isto, porque ele não compreende as sutilezas da força e assim não pode fazer nada a fim de pará-la. Se ele está no nível das Duas Aparências, mas eu estou no nível das Quatro Imagens, um confronto se pareceria com isto:

Demonstração de tuishou por Jan Silberstorff

Meu oponente tem, ao todo, duas oportunidades de mudança, enquanto eu tenho quatro.
Agora, por favor cubra a linha inferior na figura que contém duas linhas (abaixo). O que você vê agora é o que o oponente percebe, porque ele só pode reconhecer no outro aquilo que ele sente em si mesmo. Por isto, ele não pode compreender meu movimento e pode apenas assistir enquanto é derrotado. Esta é a razão pela qual não acontecem lutas quando existe uma diferença significativa de nível. O resultado está determinado de antemão. Se o desafiante reconhece isto a tempo, ele retrocederá sem lutar. Nós conhecemos este tipo de evento através das muitas lendas sobre o Taijiquan (tai chi chuan), em que a luta pára após o primeiro contato e o desafiante se desculpa e retira-se.

Duas Aparências contra Quatro Imagens

Se o desafiante não reconhece a situação a tempo, também não há luta, porque ele será vencido instantaneamente. Lutas sempre ocorrem numa sequência de eventos no tempo, o que quer dizer que o tempo passa devido a uma acumulação de erros. Se o primeiro movimento leva à vitória, quer dizer que, neste sentido, não passou nenhum tempo, ninguém se lembra de ter visto uma luta, exceto talvez um nocaute ou algo algo similar.
Por outro lado, se ambos tiverem atingido o nível das Quatro Imagens, por exemplo, o adversários conhecer-se-ão mutuamente. Nesta situação todas as possibilidades diferentes serão testadas numa sequência de tempo, ou numa luta. Isto normalmente é descrito como “briga”.

As diferenciações tornam-se mais sutis

Uma vez que eu chego ao nível dos Oito Trigramas e meu oponente ainda está operando no nível das Quatro Imagens, é-me novamente fácil derrotá-lo, exatamente como antes. Se ele estivesse no nível das Duas Aparências, seria ainda mais fácil.
Se nós observarmos um Grão-Mestre contra um iniciante, nós veríamos um hexagrama com 6 linhas opondo-se a uma única linha na melhor das hipóteses. É quando podemos testemunhar aqueles fenômenos impressionantes, que alimentam as lendas.
Assim, se vemos arte superior ou briga não tem nenhuma relação com idéias do tipo, “isto é Taijiquan (tai chi chuan)” e “isto não é Taijiquan (tai chi chuan)“. É simplesmente uma questão de nível de habilidade, e acima de tudo da diferença do nível de habilidade dos dois oponentes. As diferenças de habilidade nos torneios são habitualmente pequenas, assim as lutas parecerão brigas selvagens na maioria das vezes. Isto não tem nada a ver com bom ou ruim, e uma desaprovação geral seria simplista e indiferenciada.

Duas Aparências contra Oito Trigramas

No sentido real da palavra, é uma questão de quão profundo um movimento pode ser.
Assim, progresso é a busca pela menor partícula. Eu aprendo a sentir cada vez mais profundamente em mim mesmo, e a sondar interações refinadas de yin e yang. Quando o nível dos Oito Trigramas é alcançado, isto não acontece mais através da razão. Nossos níveis mentais também precisam tornar-se mais sutis, o que quer dizer que devem residir no espaço “antes”, na profundeza em nós mesmos. Quanto mais profundamente eu quiser sentir meu corpo físico, mais sensível e profunda minha mente – que percebe – precisa ser, e mais cedo eu chegarei à origem do meu movimento, e do movimento em geral. Para melhorar continuamente eu preciso também abandonar o ego e o Eu personificado.
Deste modo, o processo se reverte no seu ponto mais distante e lentamente volta das dez mil coisas até o Três, o Dois, e o Um. Desta vez não é um estado temporário, mas o verdadeiro estado do Wuji. O Yin e o yang foram experimentados em interrelações mais e mais sutis, até o ponto em que eles quase não podem ser distinguidos um do outro. Então atinge-se o ponto quando eles não podem mais ser diferenciados de nenhuma forma. “Para obter o Tao, Yin e Yang têm que estar harmonizados”. Aí está: harmonia, o ponto em que Yin e Yang dissolvem-se um no outro e desaparecem. Exatamente como as partículas e anti-partículas dissolvem-se umas nas outras e desaparecem, nós também retornamos à Unidade.
Neste momento, experimenta-se o si mesmo no estado do Wuji, vivo externamente no estado do Taiji. Internamente experimenta-se o eterno imutável, enquanto externamente a vida é vivida na sua dualidade, em constante transformação. Como resultado, vida e morte não podem mais ser distinguidas, e surge um estado que os chineses chamam Xian Ren, o estado de um Imortal. O ser humano volta à criação de onde veio, e forma com ela a Unidade.