Os cinco níveis de Kung Fu – comentário

Os cinco níveis de Kung Fu no (Tai Chi Chuan) - comentário

Nos dias 17 a 19 de Março de 2006 o Mestre Jan Silberstorff ministrou seu terceiro seminário no Brasil, em Salvador. Jan esteve pela primeira vez no Brasil em Novembro de 2002 para assistir ao seminário final do Grão-Mestre Chen Xiaowang no país, e retorna anualmente para ministrar seminários desde 2004. Jan Silberstorff é o mais habilidoso discípulo do Grão-Mestre Chen Xiaowang, e participou com o Grão-Mestre da fundação da World Chen Xiaowang Taijiquan (tai chi chuan) Association, tornando-se presidente da WCTAG, a maior associação de Taijiquan (tai chi chuan) do mundo em número de associados.
O ano de 2006 foi um marco para o desenvolvimento do Taijiquan (tai chi chuan) no Brasil, pois durante o seminário o Mestre Jan Silberstorff anunciou a fundação oficial da World Chen Xiaowang Taijiquan Associaton – Brazil, formalmente autorizada pelo Grão-Mestre Chen Xiaowang. A WCTA-Br funcionará sob o patriarcado do Grão-Mestre, tendo Jan Silberstorff como seu Diretor Técnico.

O seminário foi precedido por uma palestra, quando Jan comentou detalhadamente a explicação do Grão-Mestre sobre os Cinco Níveis de Kung Fu (habilidade) no Taijiquan (tai chi chuan). O texto do Grão-mestre a respeito está traduzido e publicado neste sítio, no entanto a sua compreensão em profundidade é um desafio para qualquer aluno, e os comentários de Jan a respeito vieram a esclarecer o significado do texto para os inicantes. Transcrevemos abaixo:

Existem cinco níveis de Kung Fu (habilidade) no Taijiquan (tai chi chuan). O que a maioria das pessoas não sabe é que 99% dos praticantes de Taijiquan (tai chi chuan) em todo o mundo estão no primeiro nível de habilidade, incluindo professores, juízes e vencedores de torneios; 0.9% estão no segundo nível de habilidade, e os restantes 0.1% estão no terceiro, quarto e quinto níveis. Mesmo isto é uma estimativa exageradamente otimista, pois na verdade não há mais de uma dúzia de pessoas em todo mundo nos níveis 3, 4 e 5, o que representa bem menos de 0.1%.
Algumas vezes um aluno lê o texto do Grão-Mestre e pensa, “eu devo estar no terceiro ou quarto nível”. Isto acontece porque se o texto não for compreendido corretamente, é muito fácil enganar-se. Mas se o texto for corretamente entendido, vê-se logo que os níveis superiores de habilidade estão muito, muito distantes.

A primeira coisa a saber é que ninguém pode progredir diretamente. Isto significa que todos estão cometendo erros. Todos começam, fazem erros, têm uma compreensão errada, são corrigidos, voltam ao caminho correto, então desenvolvem outras idéias erradas, são novamente corrigidas, voltam novamente ao caminho correto, e assim por diante – e isto não depende de inteligência – e assim progridem como mostra este desenho em zigue-zague. É a conscientização a respeito de um erro que causa o progresso, mas sem um professor, não há como descobrir que se está seguindo uma idéia errada, e pode-se segui-la para o resto da vida.
Muitas pessoas, especialmente no Ocidente, treinam para aprender Taijiquan (tai chi chuan), mas depois de algum tempo de treino nada de novo acontece. Isto pode ocorrer porque o professor destas pessoas não tem muito conhecimento, e o que ele tem a ensinar acaba em um ano ou dois. Muitas pessoas que treinam, porque deixam de ter progresso depois de algum tempo, começam a criar coisas a partir das suas próprias idéias, ou a inventar o que elas acreditam serem sistemas novos, ou a tentarem combinar o Taijiquan (tai chi chuan) com outras formas de movimento. Se o aluno perde o caminho correto, ele sente que algo está faltando, mas não sabe exatamente o quê, e por isto ele começa a procurar a esmo. É melhor ter um professor que conheça bem o que está ensinando e que possa corrigi-lo de modo a permanecer no caminho e aprofundar-se nele.
Somente após atingir o terceiro nível de habilidade, o praticante tem conhecimento suficiente para progredir sozinho, mesmo sem um professor.

No primeiro nível, aprende-se tudo a respeito da compreensão correta: isto quer dizer não apenas o zhanzhuang (zhan zhuang) propriamente dito, mas compreender claramente os princípios por trás deste exercício. Recebe-se as correções na postura, para que seja possível manter a postura correta do corpo, aprende-se todas as idéias sobre o conceito do chansijin, e é claro também os movimentos e todas as formas do sistema (laojia e paochui, todas as armas, etc.) – não apenas as coreografias mas também o motivo e como realizar cada movimento. No primeiro nível não apenas ouve-se, mas compreende-se todas as instruções verbais tradiconais do sistema. Porque o aluno ainda é iniciante, estas informações ainda não são ensinadas em toda a sua profundidade, e as correções para a postura e o movimento que o professor faz não são visando a perfeição do movimento, mas uma correção básica e geral da postura do corpo.
No final do primeiro nível, o aluno tem uma sensação confortável após a prática, e pode sentir o que ele acredita que seja o qi. As formas parecem corretas vistas externamente. Isto gera a sensação de que já se alcançou um bom nível, mas quando tenta-se o tuishou não há grande diferença para antes de começar a praticar. O aluno consegue empurrar algumas pessoas mas outras não, da mesma forma que aconteceria se nunca tivesse treinado. Para a saúde os efeitos são como os de um exercício físico de intensidade moderada.
Este é um ponto perigoso para a prática, pois o aluno pode chegar a acreditar que realmente sabe Taijiquan (tai chi chuan) e que não precisa mais de um professor, e assim estagna para sempre seu progresso e fica no mesmo nível para todo o resto de sua vida. Por isto é muito comum ouvir nos círculos de Taijiquan (tai chi chuan) que “são necessários 20 ou 30 anos para aprender Taijiquan (tai chi chuan)“, este é um pensamento que acalma aqueles que pararam de progredir depois de 2 ou 3 anos de treino e passaram os 15 anos seguintes estagnados. Se alguém com este nível de conhecimento começa a dar aulas, ele acaba afastando-se gradualmente do tuishou, pois sente que há algo errado com a sua prática já que ela não proporciona nenhum efeito concreto verificável, ou então inicia a falar a respeito de “segredos” que só podem ser ensinados mais tarde ou para alunos especiais, para esquivar-se de perguntas para as quais não tem respostas.
Dentre todos os grandes mestres que conheci, tanto na China quanto fora da China, nem mesmo um só jamais falou em segredos; e sem exceção quando eu pedi para tocar no corpo deles e sentir o movimento ou para tentar empurrá-los, todos permitiram. Todos gostavam de ensinar, e ensinavam sem reservas. Quanto mais baixo o nível do professor, mais ele fala em segredos, e em não testar o professor.

No segundo nível o aluno começa a compreender melhor o que se chama de Seis Harmonias. Compreende-se a ligação entre mãos e pés, cotovelos e joelhos, e ombros e quadris; entre mente e coração, energia interna e externa, e órgãos e tendões e músculos, como tudo isto funciona junto e como faz o exterior e o interior tornarem-se um só. No primeiro nível ouve-se falar do trabalho do qi e de alquimia interna, mas é no segundo nível que se compreende o que siginifca isto. No segundo nível compreende-se a diferença do trabalho interno real para a simples sensação confortável que se tinha no primeiro nível. Entende-se como o movimento conecta-se internamente, como o movimento do corpo é um só movimento e não vários movimentos simultâneos, e como o fluxo de qi é ligado a isto. No primeiro nível isto podia acontecer em parte, mas no segundo nível isto é compreendido, assim como o chansijin. O conhecimento sobre o chansijin pode ser colocado dentro das formas, e gradualmente aparece a percepção de quando um movimento está certo ou errado.
No segundo nível de habilidade, o praticante pode perceber por si só o que é real e o que não é, e separar o concreto do imaginário – tanto na própria prática quanto ao observar outros praticando. Não mais se olha para os movimentos visualmente atraentes, mas para as conexões internas do corpo. Neste ponto é possível começar a corrigir outras pessoas – mas sem um bom professor mesmo no segundo nível o praticante ainda estará perdido. Ser capaz de corrigir a si mesmo sem nenhuma orientação de um professor não é possivel antes de atingir-se o quarto nível de habilidade.
No final do segundo nível a habilidade marcial funciona quando o oponente move-se relativamente devagar. Isto não quer dizer que a velocidade do movimento do oponente é pequena, quer dizer sim que as mudanças na força do oponente não são muito rápidas. O corpo do praticante ainda precisa ser governado conscientemente pelo pensamento para modificar a própria força, as trocas de força ainda não são naturais, portanto não é possível ainda reagir adequadamente a ataques reais.

A diferença do segundo para o terceiro nível é que os círculos internos do qi são menores no terceiro nível. Não os movimentos externos, visíveis, mas sim as conexões internas, os caminhos da energia tornam-se mais concentrados e compactos. Isto não tem nada a ver com a aparência externa dos movimentos. Círculos menores querem dizer que as mudanças internas são muito mais rápidas, as trocas de força são mais rápidas. Assim se um ataque real ocorre, o caminho do qi e a conexão entre o qi e a mente são muito curtos e imediatos, e é então que a habilidade marcial começa a funcionar. Mesmo quando uma pessoa mais forte que você ataca velozmente, é possível mudar rapidamente e resolver a situação, e por causa da circulação mais compacta do qi o nível de detalhe e profundidade do movimento é muito maior.
Correspondentemente o resultado para a saúde é muito melhor, e pode-se atuar sobre um desequilíbrio energético muito mais cedo e eficientemente, por isto pode-se evitar o adoecimento em muitos casos.
As conexões internas do qi são profundas o suficiente para gerarem uma sensação de conforto e naturalidade muito grande.