Taijiquan, Psicologia e Automatismos

O ser humano é um ser integral. Ainda que a aparência superficial possa eventualmente ser de que algumas partes de nós são independentes ou diferentes de outras, num nível profundo o ser humano é um todo integrado. Isto fica claro na clínica da Acupuntura: os mesmas harmonias externas que cultivamos durante o [Zhanzhuang] são usadas pelo Acupunturista para tratar dores articulares de pacientes que nunca ouviram falar de Taijiquan (tai chi chuan). Todos os dias, no meu consultório, eu trato dores de joelho inserindo agulhas nos cotovelos dos pacientes.

As estratégias de adaptação que usamos para lidar instintivamente com nosso ambiente também parecem ser as mesmas em vários aspectos do nosso ser. Enquanto crescemos, somos confrontados com conjunturas emocionais para as quais não temos equipamento suficiente. O resultado pode ser o surgimento de uma estratégia de “sobrevivência” emocional mais ou menos cristalizada, que se perpetua pela repetição da reação consequente quando situações que evocam a conjuntura original se apresentam. Uma pessoa pode, assim, apresentar comportamentos automatizados na idade adulta, dos quais a consciência é limitada, que se enraízam em experiências emocionais da infância. Estes automatismos podem causar sofrimento, e o caminho para libertar-se deles é a re-elaboração das emoções, revivendo a experiência original de alguma forma.

Cada vez mais observamos que a psicoterapia precisa muitas vezes ir além de aconselhamento e interpretação, pois a reprogramação do comportamento via fala tem um alcance limitado: a diferença entre entender e modificar. A psicoterapia precisa ajudar a reconstruir habilidades que até menos de 10 anos pensava-se que eram inatas, como controle emocional, controle de impulso… e principalmente reeditar padrões de vínculo.

O corpo opera de modo similar. Durante nossa vida somos submetidos à situações com as quais não sabemos lidar, e sem instrução suficiente para isto. O primeiro exemplo é a luta com a força da gravidade e o desafio de aprender a andar. O melhor que podemos fazer é imitar aqueles mais próximos, os nossos pais. Acredito que seja este o motivo de, observando pais e filhos caminhando lado a lado, seja flagrante a similaridade do seu movimento. Estas experiências continuam por toda a vida, passando pela luta corporal para tomar o brinquedo de outra criança, por aprender a correr, a escrever, a dirigir, a praticar um esporte qualquer. O corpo desenvolve estratégias conforme lhe é possível, e inevitavelmente cria sítios de rigidez e reações automatizadas. Estas reações automáticas aparecem como tensões inconscientes, que alteram a postura e a distribuição harmoniosa do esforço para suportar o próprio peso, e o esforço do trabalho físico. O resultado são danos por esforço repetitivo, dores musculares e articulares sem causa aparente, e tensões desequilibradas sobre o esqueleto, que podem agravar-se até provocar lesões.

A solução é livrar-se das reações automáticas de tensão e de distribuição desequilibrada de esforço. A busca deve ser pelo relaxamento e pelo reencontro de um modo natural de mover-se, que traga liberdade às articulações para que estas possam transmitir os esforços sem sofrer cargas transversais recorrentes. É preciso re-educar o corpo e criar uma nova coordenação motora. A única forma é reviver as situações de tensão de forma controlada, a começar pelo confronto com a força da gravidade e o aprendizado de ficar em pé, e aprender a lidar com elas pelo relaxamento. É isto que o Taijiquan (tai chi chuan) oferece.

Este artigo contou com a contribuição da minha querida irmã de gongfu Liana Netto, Doutora em Psicologia pelo IJBA.