Arte e caminho

Arte e caminho

Você pode copiar o comportamento, mas não pode copiar o espírito.

Chen Yingjun disse-me, muito anos atrás, que não é possível copiar a habilidade de um mestre de Taijiquan (tai chi chuan), mesmo que se consiga copiar a aparência da forma. O Taijiquan (tai chi chuan) é, além de uma arte marcial e de uma prática de saúde, uma forma de cultivo interior, de encontrar e desenvolver valores pessoais diferentes daqueles promovidos pelas culturas de massa e de consumo.
O Taijiquan (tai chi chuan) sempre teve estas qualidades inerentes, pois foi concebido desta forma desde o princípio, pelo seu fundador. Se atualmente os aspectos de saúde e filosofia têm recebido mais atenção, é por termos a felicidade em tempos mais civis. Por outro lado, o fato de vivermos imersos numa cultura ocidental-cartesiana deixa-nos vulneráveis ao hábito de crer que podemos importar de outras culturas apenas os aspectos que nos interessam momentaneamente. É por esta razão que algumas vezes vemos praticantes dizerem que não se interessam pelo “lado marcial” do Taijiquan (tai chi chuan), como se fosse possível dividir uma prática integral em partes.
Assim, às vezes escapa ao praticante que o meio usado para levá-lo ao cultivo do espírito é exatamente o gongfu (kung fu). Um nível alto de habilidade não é garantia de um cultivo interno profundo – mas é certo que esquecer-se da prática do gongfu (kung fu) é sinal de um desencontro entre o desejo de progresso pessoal e o caminho trilhado para isto.
Uma analogia pode ser útil. Se que tomarmos, por exemplo, o Budismo, o mesmo desencontro dá-se se o budista estuda o cânone, mas esquece-se da prática da meditação. Existe uma forma inversa deste desencontro, que ocorre quando o praticante treina o gongfu (kung fu) desligado de qualquer desenvolvimento interior. Neste caso, ele está treinando simplesmente uma técnica de luta, e não uma arte marcial. Isto pode ser visto, noutra analogia, quando um judoca despreza o Do, e pratica apenas a técnica.

Espelhar-se no exemplo de comportamento do (bom) mestre é apenas o primeiro passo no cultivo pessoal. A internalização dos valores só é alcançada pela prática diária do gongfu (kung fu). É importante ressaltar que não estamos falando de espírito num sentido teológico ou religioso. Estamos nos referindo ao espírito no sentido de dedicação, disciplina, força de caráter, honestidade, lealdade, e serviço. O mesmo espírito a que se referem as lendas sobre pretendentes a discípulos que passam dias a fio, na neve, aguardando serem aceitos pelo futuro mestre. É a semente deste espírito que o mestre da lenda procura no caráter do futuro discípulo, e que se cultivada pela prática do gongfu (kung fu), dará origem às ações, sem que seja necessário copiar, ou seguir regras.

Arte e caminho são complementares e nutrem-se mutuamente. Na prática do Taijiquan (tai chi chuan), arte marcial sem caminho é apenas violência, e caminho sem arte marcial é apenas discurso.